• César Steffen

Assisti a uma aula EAD da 1ª série



Estamos todos em casa, acompanhando cada dia mais o cotidiano de nossos próximos. Bem, em minha casa, tenho meu enteado de 7 anos, que está no 1º ano do ensino fundamental de uma boa escola particular de Porto Alegre.

Sempre me envolvi o quanto pude − levava à escola, buscava, me inteirava das atividades e tudo mais que um padrasto pode e deve fazer. Recentemente me vi envolvido nas aulas dele via EAD (educação a distância), que têm acontecido todos os dias, à tarde, pelo ambiente virtual disponibilizado pela escola.

Para deixar claro desde já: não pensava em escrever sobre a experiência, mas, ao final, confesso que não resisti a contar o que vi e ouvi. Por isso mesmo, não tenho intenção de expor nomes da escola nem de pessoas. O foco aqui deve ser O QUE aconteceu, não quem fez o quê e por quê.

O processo é o seguinte: a escola passa uma agenda semanal com as atividades que serão desenvolvidas a cada dia, e os alunos, com a ajuda dos pais, preparam o material que precisa estar pronto no dia. Depois, logam-se em uma sala específica da plataforma Moodle da escola, junto com a professora e com o apoio de uma monitora para problemas técnicos.

No dia que acompanhei, a atividade era formar frases jogando dados de papel com palavras. Cada aluno jogava uma vez cada dado com palavras diferentes. Se a frase não fizesse sentido, a professora e a turma corrigiam, fazendo uma frase certa. Alfabetização lúdica. Gostei.

Parece simples, mas vejam bem… estamos falando de crianças de 6, 7 anos, acompanhadas de pais ou avós, adultos que podem ter a melhor das intenções, mas não necessariamente conhecem o processo. E tudo via EAD.

'Caos controlado'

Como foi? Bem… tudo começa com a professora chamando cada criança, dando oi à medida em que os alunos vão se conectando. Daí a professora começa explicando a atividade, lembrando do material e como funcionam todas as aulas: câmera ligada e microfones desligados, se a criança não tiver dúvida. Microfone ligado só em caso de dúvida ou se a professora chamar para interagir.

De novo, parece simples. Mas, de novo, são crianças de 6, 7 anos. Elas sentem saudades dos coleguinhas, querem conversar no meio da aula EAD. E se dispersam, esquecendo o microfone ligado. E a ansiedade faz três falarem ao mesmo tempo. E há os que esqueceram de fazer os dados ou outro material e têm que correr para fazer. Teve até uma avó − acredito, pela voz, que era uma pessoa de idade − ralhando com um aluno que não fazia a atividade, com o microfone aberto, apesar da orientação da professora.

Resultado, a professora passa mais tempo chamando a atenção e pedindo para desligarem o microfone, ligarem a câmera, prestarem atenção, fazerem a atividade do que fazendo a atividade propriamente dita. Ah, e tudo isso de casa, com conexão à internet oscilando − estamos no Brasil, lembram? − e com chapéu e roupa de prenda, afinal, é época de festa junina e, mesmo via EAD, é preciso estar no clima.

Apesar de tudo, a aula funciona. E a turma consegue, em pouco mais de uma hora, montar umas cinco frases corretas. E as crianças se ajudam, corrigem umas às outros, junto com a professora, não raro falando ao mesmo tempo ou mais alto do que ela. E uma dá uma dica que ajuda a outra. E brincam com os erros e acertos de cada uma. Um caos relativamente controlado.

No final, os pequenos passam canetinha bem grossa no que escreveram para mostrar, pela câmera, à professora. Que passa e vê todos os trabalhos, de todos os alunos. E os elogia. E comenta. E faz observações. E anota coisas para tratar com os pais em reunião − que, aliás, também foram feitas via EAD neste semestre.

Confesso que fiquei tenso a maior parte da aula. Ao mesmo tempo em que quis deixar meu enteado o mais livre e à vontade possível − afinal, é a aula dele, com a professora dele e ele precisa aprender a se organizar e a gerenciar suas ações e suas atividades −, tive vontade de intervir. As ações dos outros alunos, a falação, os microfones abertos e a gritaria me tiraram, muito, do sério. Confesso, de novo: precisei de uns bons minutos para me acalmar depois.

Amor

O que aprendi nisso? Que a educação é feita de pessoas, de amor, de coração, de vontade. De carinho, afeto, paciência. Sem amor, sem camiseta, sem gosto e paixão, não há como trabalhar com educação, especialmente em níveis iniciais. Não importa a base, a forma de contato, mas, sim, o envolvimento, o carinho, a confiança e o companheirismo envolvidos.

Como professor de ensino superior, trabalho na ponta final de um longo processo, testemunhando os resultados que são ou foram construídos ao longo dos anos na formação daquelas pessoas. A oportunidade de estar ao lado de crianças e de ver como isso ocorre na prática foi extremamente reveladora. Ainda mais em um momento tão diferente como o que vivemos nesta pandemia.


O mais legal de tudo isso é ver que dá resultado. Hoje, em pleno isolamento, meu enteado já consegue ler as marcas dos doces e salgados prediletos, achar seus desenhos preferidos na Netflix e escrever, no campo de busca, os títulos dos filmes e desenhos de que gosta. Ele já consegue ler as horas e até já começa a entender quanto custa o que quer comprar.

Sim, ele está aprendendo. Como tudo o que narrei, com todas as limitações, os problemas, as dificuldades, os erros e os acertos, ele segue crescendo e aprendendo.

Ficam aqui os meus parabéns e agradecimentos aos professores da educação básica, guerreiros e guerreiras que, mesmo no pior dos cenários, conseguem dar o seu melhor para nossas crianças.

Obrigado!!! De coração!

A educação passa por aqui.

Educa 2022

Professor que escreve uma fórmula em um

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