• Cláudio Lovato Filho

As novas mães do musseque


Este conto foi escrito depois de uma das minhas viagens à África. Tenho recordações muito especiais das ocasiões em que estive em Angola, Moçambique e Djibuti.


* * *

Chegamos ao musseque no começo da manhã. Musseque é como se chamam as favelas em Angola. O musseque em que estamos se chama Mussende. Musseque do Mussende.


Nosso anfitrião nos conduz por uma viela. É um homem baixo e bem-humorado com sotaque carioca. Ele caminha com desenvoltura. Conhece o lugar e os moradores há muito tempo. O carro ficou lá embaixo. Aonde vamos somente se chega a pé.


Uma jovem nos espera à porta da casa que fica no fim da subida. Ela veste um bubu azul e amarelo. Meu bloco de anotações está no bolso de trás da calça jeans. Minha companheira fotógrafa carrega sua bolsa de equipamentos.


Vamos conhecer uma parteira tradicional de Luanda e contar, nas páginas de uma revista, como é o trabalho dela. O relato fará parte de uma grande reportagem que vou assinar sobre programas sociais em Angola.


Nosso anfitrião cumprimenta a jovem. Ela nos convida para entrar.


A casa fica mais escura à medida que avançamos. Não sei o que vou encontrar, por mais que tenha tentado me preparar.


À nossa frente, uma porta fechada. A jovem a abre, ingressa no cômodo e fecha a porta atrás de si. Em poucos minutos ela retorna e faz sinal para que entremos.


Duas camas, uma mulher em cada uma delas, ambas segurando um bebê. Estão cansadas, mas felizes. Entre as camas, uma mulher, uma senhora (difícil precisar a idade), nos observa, de braços abertos, a palma das mãos voltada para cima. A jovem vai até a janela e abre uma fresta na cortina, o bastante para que a luz do sol invada o quarto.


Eu me aproximo de uma das camas, de maneira lenta e cuidadosa. A mãe sorri e afasta o pano que protege o filho. Vejo o rosto minúsculo e sinto minha tensão se esvair. Sinto um tipo de calma que não consigo compreender. Sinto vontade de simplesmente ficar ali, enquanto o mundo continua em sua marcha frenética e insana lá fora.


* * *


Cláudio Lovato Filho é autor do romance Em Campo Aberto (Record) e dos livros de contos Na Marca do Pênalti (editora 34) e O Batedor de Faltas (Record). Nasceu em Santa Maria (RS), em 1965. Ainda na infância mudou-se com a família para Porto Alegre, onde, em 1988, formou-se em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Começou na profissão como repórter e editor, em jornais de Santa Catarina. No Rio de Janeiro, cidade na qual viveu por 20 anos, especializou-se em comunicação empresarial. Nesse período, realizou coberturas jornalísticas e participou da execução de projetos editoriais/institucionais em mais de 20 países. Desde 2016 é assessor de imprensa em Brasília.

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