• César Steffen

As múltiplas faces da EAD



Li, no portal de notícias G1, que alunos dos municípios potiguares de Serra Negra do Norte e Caicó estão tendo acesso a conteúdos escolares pelas rádios locais. E não somente no Rio Grande do Norte, mas no estado do Maranhão também as emissoras de rádio estão sendo utilizadas para transmitir aulas e evitar − ou minimizar − os prejuízos causados pela quarentena.

Um problema grave e observado especialmente no ensino público é a dificuldade de acesso à internet. Muitos estudantes não têm computador ou sequer acesso à rede, e não são poucos os que conseguem acessar somente por dispositivos móveis com 3G ou 4G, que raramente contam com versões atualizadas dos sistemas e aplicativos. Resultado: há alunos que estão afastados dos estudos e sem nenhum acompanhamento desde o início do isolamento.

Será que podemos esperar aumento nos índices de evasão este ano? Temo que sim, assim como veremos queda nas médias do Enem. E a evasão irá atingir fortemente o ensino público, mas com impacto previsível também no ensino privado, pois muitas famílias têm demonstrado temor de mandar os filhos de volta à escola, em 2020, devido à covid-19.

Correspondência


Pode causar estranheza para alguns o uso do rádio como forma de propagação da educação, mas não é a primeira vez que o rádio serve a tal propósito. Sem falar de outros meios já utilizados: nos anos 1940, o Brasil contava com cursos de formação por correspondência. Quem leu um gibi da Editora Abril, entre as décadas de 1940 e 1990, certamente se deparou com um anúncio do IUB, o Instituto Universal Brasileiro, que vendia cursos técnicos pelo correio.

Corte e costura, eletrônica, mecânica básica, eletrotécnica e mais uma dezena de formações eram ofertadas por correspondência, e o aluno fazia uma prova para receber o certificado. O IUB ainda existe e, como seria de esperar, hoje oferta seus cursos, inclusive supletivos, pela internet.

Em 1978 estreou no Brasil, numa iniciativa da Fundação Roberto Marinho, o Telecurso 2º Grau, em que o aluno comprava apostilas e livros de exercícios como fascículos nas bancas de jornais em todo o país, e assistia às aulas pela televisão. A iniciativa foi ampliada em 1981, com o Telecurso 1º Grau, com conteúdos da 5ª à 8ª série. Em 1998 esse projeto passou a ter parceria com o MEC, para a implantação de telessalas, e passou a vender as aulas em fitas nas mesma bancas de jornal − e mudou seu nome para Telecurso 2000, sendo considerado, até hoje, o maior e mais eficaz projeto de educação a distância no Brasil.

Então, não é possível pensar em deixar o rádio de fora da educação.


Landell de Moura, padre, cientista e inventor gaúcho a quem é atribuída, dentre outras, a invenção da transmissão por ondas de rádio − apesar de a história registrar isso para o físico italiano Guglielmo Marconi −, dizia que o rádio era o jornal dos analfabetos, pelo seu poder de informar e levar as informações e o entretenimento a todos.

Ainda hoje é um dos meios de comunicação com maior alcance. Sim, talvez os jovens estejam migrando para os aplicativos de música por streaming, e estejamos buscando mais informações nos sites de notícias e nas redes sociais. Mas o rádio mantém sua força, principalmente no nível local, atendendo comunidades de todos os tamanhos e nos mais distantes lugares do país.

Li em algum lugar que “a tecnologia não criou os incendiários, mas facilitou o acesso aos fósforos”. A internet não criou a EAD, mas trouxe mais recursos, facilidades e velocidade. O que não significa que devemos ignorar ou abandonar outras formas de disseminar o conhecimento.


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César Steffen é doutor em comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e criador da EAD sem Mistérios, plataforma que oferece cursos de formação em educação a distância para professores e gestores. Pesquisador nas áreas de comunicação, design e marketing, leciona em cursos de graduação e pós-graduação há mais de 15 anos. Atua também como avaliador do ensino superior brasileiro, integrando o Banco de Avaliadores (BASis) do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) do Ministério da Educação. É autor dos livros Midiocracia: a nova face das democracias contemporâneas e Tecnologia pra quê? − Volumes 1 e 2.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do blog Educa 2022.

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