• Cláudio Lovato Filho

As crianças de Lac Assal


Foto: Pinterest

Este texto narra uma passagem da visita que fiz a Djibuti, no Chifre da África, em 2007, uma das experiências profissionais e pessoais mais marcantes que tive o privilégio de viver nestes mais de 30 anos de profissão.


* * *

De longe parece areia, mas é sal. Um lago de sal formado na cratera de um vulcão, 155 metros abaixo do nível do mar. Lac Assal. O leito, as bordas, tudo sal. Mais de 50 quilômetros quadrados de área, uma imensidão. Fica em Djibuti, país de maioria muçulmana que até 1977 se chamava Território Francês dos Afars e Issas e, antes, Somália Francesa. Ainda existe lá um regimento da Legião Estrangeira.


“Não mostrem dinheiro, senão eles não vão deixar vocês em paz”, disse o nosso anfitrião assim que começamos a pôr os pés na água e a tirar fotos. “Eles vão querer vender sal do lago. Digam que não querem. Se eles virem uma moeda, não vamos conseguir sair daqui hoje”.


Era estranho ouvir orientações em relação a pessoas das quais não havia nem sinal. Éramos apenas nós naquela imensidão branca.


Caminhamos pelas margens, alguns pegaram pequenos pedaços de sal, muitas fotos, expressões de espanto, piadas.


Então eles chegaram, e eram muitos.


Homens, mulheres e, em maioria, crianças. Caminhavam devagar, mas sem dúvida em nossa direção. Em alguns minutos, as crianças começaram a cercar aqueles que ficaram fora da água. Falavam em árabe e em francês. Queriam dinheiro pelos pedaços de sal que nos ofereciam. Respondíamos que não, merci, mas então um deles viu um do nosso grupo tentando ocultar um pequeno pedaço de sal, e foi nessa hora em que todos, homens, mulheres e crianças, começaram a gritar que não, que aquilo não era permitido, que se quiséssemos souvenires teríamos que comprar deles.


Aos poucos se acalmaram e passaram a oferecer seu produto com mais suavidade. Nosso anfitrião disse que não tínhamos dinheiro. Algum tempo se passou até que se desinteressaram de nós, aparentemente. Ao que parecia tinham entendido que não éramos turistas, mas, sim, gente ligada à construção do terminal de contêineres do porto da capital.


Mais um tempo transcorreu até que o passeio foi oficialmente declarado encerrado e nos dirigimos para os carros. Numa última investida, as crianças cercaram alguns de nós, tentando vender pedaços da orla do grande lago de sal.


Durante todo o caminho de volta para a cidade de Djibuti pensei naquelas famílias e, em especial, nas crianças. As crianças de Lac Assal. Quem se preocupa com elas? Que vida teriam pela frente naquele pequeno e esquecido pedaço do Chifre da África?


“Os estranhos somos nós”, me lembro de ter pensado, enquanto nossa caminhonete tentava entrar em acordo com a estrada esburacada.


Nós, forasteiros em um mundo que não compreendíamos e cujos moradores, por isso, nos inspiravam pena, quando os dignos de pena talvez fôssemos nós. Nós apenas tínhamos as moedas.


* * *


Cláudio Lovato Filho é autor do romance Em Campo Aberto (Record) e dos livros de contos Na Marca do Pênalti (editora 34) e O Batedor de Faltas (Record). Nasceu em Santa Maria (RS), em 1965. Ainda na infância mudou-se com a família para Porto Alegre, onde, em 1988, formou-se em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Começou na profissão como repórter e editor, em jornais de Santa Catarina. No Rio de Janeiro, cidade na qual viveu por 20 anos, especializou-se em comunicação empresarial. Nesse período, realizou coberturas jornalísticas e participou da execução de projetos editoriais/institucionais em mais de 20 países. Desde 2016 é assessor de imprensa em Brasília.

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