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Boas práticas e casos de sucesso na educação

Os 200 anos da Independência do Brasil serão celebrados em 2022, mas somente com educação de qualidade − e para todos − é que seremos verdadeiramente livres.

 
 
  • Demétrio Weber

As 100 melhores escolas públicas de ensino médio que atendem alunos de famílias de baixa renda

Acaba de sair um estudo que mostra como é possível oferecer ensino de qualidade e fazer a diferença na vida dos jovens, apesar das adversidades. Foram identificadas cem escolas públicas com bons índices de aprendizagem e elevadas taxas de aprovação (mais de 95% dos alunos passam de ano), em 11 estados brasileiros. Todas são de ensino médio e atendem estudantes de famílias de baixa renda.


O relatório Excelência com equidade no ensino médio: a dificuldade das redes de ensino para dar um suporte efetivo às escolas revela, contudo, que as cem escolas são a exceção e não a regra. Afinal, representam apenas 2% dos 5.042 colégios públicos de ensino médio cujos alunos, majoritariamente, são de baixo nível socioeconômico, em todo o país.


O Ceará é o estado com mais escolas na lista do novo estudo: 55. No universo de escolas públicas cearenses de ensino médio com estudantes de famílias de baixa renda, esses 55 colégios correspondem a 9,5%. Ou seja, o índice cearense é quase quatro vezes maior que o nacional (2%). Vale destacar que a região Norte está representada por uma única escola e a região Sul, por duas.


Veja a distribuição das 100 escolas por estado:


1. Ceará: 55

2. Pernambuco: 14

3. Espírito Santo: 7

3. Goiás: 7

5. Piauí: 4

6. Maranhão: 3

6. Rio de Janeiro: 3

8. Minas Gerais: 2

8. Rio Grande do Sul: 2

8. São Paulo: 2

11. Amazonas: 1


Tempo integral


Uma das principais contribuições do estudo é apontar as estratégias que dão certo − e, mais importante, que podem ser replicadas Brasil afora. A começar pela oferta de educação integral, em que os jovens passam a manhã e a tarde na escola: 82 dos cem estabelecimentos funcionam dessa maneira (80 deles com carga horária de 9 a 10 horas diárias e dois, na faixa de 7 a 8,9 horas diárias). Não à toa, nos países desenvolvidos, a educação em horário integral é a regra.


O estudo mostra que o Brasil tem dado alguns passos nessa direção. De 2014 a 2018, o percentual de estudantes do ensino médio em escolas de tempo integral subiu de 5,4% para 9,5%. Consideradas apenas as escolas públicas, esse índice chega a 10,3% do alunado. Diz o relatório: “A educação integral se mostra bastante desafiadora para as redes de ensino não apenas pelo aspecto quantitativo, porque, além de exigir robusto financiamento, implica extenso planejamento e suporte para que os estudantes não sejam mantidos no ambiente escolar com atividades inócuas.”



O desafio do financiamento não é o único entrave à disseminação de escolas de tempo integral. Para uma parcela da juventude brasileira, trabalhar depois das aulas é condição de sobrevivência. “(...) muitos adolescentes precisam trabalhar para ajudar nas despesas domésticas. Para muitos, num cenário de dificuldades socioeconômicas, estudar o dia todo não é uma opção. Análise do Iede, publicada em agosto de 2018 (...), mostra que 40% dos alunos da rede pública disseram exercer atividade remunerada após as aulas, contra 24,4% dos alunos da rede privada”, diz o texto.


Ainda assim, não resta dúvida de que há muito a avançar. A meta 6 do Plano Nacional de Educação estipula que, até 2024, metade das escolas públicas e, pelo menos, 25% do total de alunos da educação básica estudem em tempo integral.


Patinho feio


O ensino médio é uma espécie de patinho feio da educação brasileira: vive simultaneamente profundas e variadas crises. Uma delas é a crise de identidade, pois falta clareza quanto ao propósito dessa etapa: ela deve ser preparatória para o ingresso na universidade, deve formar mão de obra para o mundo do trabalho ou deve desenvolver habilidades e competências para o exercício da cidadania?


Outra crise é a da falta de qualidade. De modo geral, para a maior parte dos alunos, as escolas de ensino médio não dão conta de cumprir satisfatoriamente nenhum dos propósitos acima. Pior: o século 21 caminha para a sua terceira década, e o ensino médio não dá sinais de encontrar seu(s) rumo(s).


Há também uma crise de acesso e permanência, tamanha a parcela de jovens que não chega a se matricular nessa etapa ou que logo a abandona. “O descompasso entre os interesses dos estudantes, as exigências do mundo contemporâneo e o ensino ofertado é evidente nos indicadores. Para alunos de baixo nível socioeconômico, o cenário é ainda mais crítico. Nenhuma escola pública que atende alunos de baixa renda se posiciona como destaque entre aquelas com os melhores resultados no Enem, por exemplo”, diz o texto.


Em outro trecho, o relatório traça um panorama das dificuldades: “Fazer uma pesquisa de boas práticas no ensino médio não é algo simples. O cenário é de baixa aprendizagem: somente 34% dos estudantes da rede pública concluem o 9º ano do ensino fundamental com aprendizado adequado em português, e em matemática, só 15%, segundo dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) 2017, do Inep [Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira]. Eles chegam ao ensino médio com essas defasagens de aprendizado acumuladas das etapas anteriores. Somam-se a elas as angústias e dúvidas próprias da adolescência e a falta de consenso no país sobre qual o papel que essa etapa final da Educação Básica deve ter na vida desse jovem.”


Vínculos


O estudo é resultado de uma parceria entre o instituto Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), a Fundação Lemann, o Instituto Unibanco e o Itaú BBA, com coordenação-geral do economista e fundador do Iede, Ernesto Martins Faria. É o primeiro da série Excelência com equidade dedicado ao ensino médio. Antes, foram produzidos levantamentos com foco nos anos iniciais e finais do ensino fundamental.


Ao selecionar as escolas, os pesquisadores tiveram as seguintes preocupações: “Olhar para escolas que trabalham, ao mesmo tempo, pela aprendizagem e por um bom fluxo escolar. (...) as escolas visitadas dedicam grande atenção ao combate à evasão e ao fortalecimento do vínculo com os alunos, construindo com eles um alto grau de pertencimento” e “Escolas que conseguem construir com os alunos uma boa base de conhecimentos, que possam ajudá-los na realização de seus projetos de vida.”


A lista das cem escolas está nas páginas 82 a 84 do estudo.


Na semana que vem, falaremos sobre o que essas escolas fazem para oferecer ensino de qualidade.

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Quem faz o blog

Demétrio Weber é jornalista, mestre em Direitos Humanos, Cidadania e Violência e criador do blog Educa 2022. Acredita que a educação pode mudar o mundo.

Como repórter nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo, entre 1995 e 2015, especializou-se na cobertura da área de educação.

Foi assessor de imprensa e consultor da UNESCO no Brasil. 

É autor, entre outros, do Guia do Ideb da Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca), dos capítulos 6 e 10 do livro Políticas educacionais no Brasil − O que podemos aprender com casos reais de implementação? e da reportagem More than money, failures of U.S. schools require new strategies, publicada no site do jornal The Washington Post.