• Cláudio Lovato Filho

Arequipa, Lowestoft, Coimbra


No exercício da arte e do ofício, as surpresas e os desafios surgem a cada porta que se abre.


* * *


Arequipa, Peru, 1997

Numa ruela escondida no centro histórico de Arequipa havia um fabricante de violões. Um artesão. Ele passava o dia todo na oficina exercendo sua profissão. 

Perguntei a ele:

"Você só fabrica violões?"

"Solamente guitarras." Somente violões.

"Nenhum outro instrumento?"

"No. Solamente guitarras."

Começou a fabricar quando ainda era criança, como aprendiz do pai, naquela mesma oficina, naquela mesma bancada de trabalho.

"Es lo que yo hago." É o que eu faço.

A gente é para o que nasce, alguém já disse.

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Lowestoft, Inglaterra, 1994

O jovem repórter estava suando frio. Com toda a segurança proporcionada pelo inglês estudado na filial do Curso Oxford na rua Conde de Bom Fim, na Tijuca, ele tentava absorver o máximo do que lhe dizia o engenheiro.

Estavam no alto de um módulo de processamento de petróleo recém-construído e que em breve seria acoplado a uma plataforma no Mar do Norte.

O engenheiro era escocês, com o sotaque mais carregado que um escocês pode ter, e explicava ao jovem repórter vindo do Brasil o intrincado modo de operação do módulo, e o jovem repórter, a cada frase do engenheiro escocês – muitas delas, além de tudo, inaudíveis por conta da barulheira dos guindastes e andaimes e tudo mais –, só esperava e torcia e até rezava para que conseguisse compreender uns dez por cento de toda aquela explicação, de modo que tudo aquilo pudesse render ao menos um parágrafo. One fucking paragraph. E rendeu.

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Coimbra, Portugal, 1998

Na volta do Porto para Lisboa, o fotógrafo perguntou:

"Conheces Coimbra?"

O repórter brasileiro não conhecia, mas queria muito conhecer.

Era noite, deram uma volta com a van pela cidade, viram pouco dos prédios da academia, o movimento de pessoas já escasseara.

Por fim, naquela que seria uma última circulada antes de seguirem para Lisboa, depararam com um local de grande movimento de estudantes. Era um bar. Resolveram entrar.

O que eram aquela alegria, aquela vibração, aquele prazer do convívio, aquela satisfação dos estudantes por simplesmente estarem ali?, o repórter até hoje se pergunta, lembrando-se de que, naquele momento, ao entrar no bar e testemunhar aquela cena, pensou nos seus próprios tempos de universitário e na festa constante que foi sua vida naquela época.

Então, ao brindar com o companheiro de trabalho no balcão apinhado da tasca no meio daquela fabulosa cidade-campus, ele pensou que, se aquilo não era o que de mais importante uma universidade podia oferecer aos seus frequentadores, então ele definitivamente não sabia para que servia uma universidade.

* * *


Cláudio Lovato Filho é autor do romance Em Campo Aberto (Record) e dos livros de contos Na Marca do Pênalti (editora 34) e O Batedor de Faltas (Record). Nasceu em Santa Maria (RS), em 1965. Ainda na infância mudou-se com a família para Porto Alegre, onde, em 1988, formou-se em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Começou na profissão como repórter e editor, em jornais de Santa Catarina. No Rio de Janeiro, cidade na qual viveu por 20 anos, especializou-se em comunicação empresarial. Nesse período, realizou coberturas jornalísticas e participou da execução de projetos editoriais/institucionais em mais de 20 países. Desde 2016 é assessor de imprensa em Brasília.

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