• Daniel Cara

Anísio, um homem à frente do seu tempo

Atualizado: Jul 30


Baiano de Caetité, Anísio Teixeira (1900-1971) foi um dos principais defensores do direito à educação no nosso país. Amigo de Darcy Ribeiro, reconhecido por Florestan Fernandes e admirado por Paulo Freire, Anísio é um gigante!


Segue a terceira parte do artigo (a primeira pode ser acessada aqui e a segunda, aqui).

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A leitura de toda obra de Anísio Teixeira começa com uma constatação, por parte do leitor: ele era um homem (muito) à frente de seu tempo.

Em Educação para a democracia: introdução à administração educacional (UFRJ), o editor explica: “Muitos dos problemas apresentados pelo autor [Anísio Teixeira] permanecem na agenda de discussões e na pauta de reivindicações das políticas públicas de educação em nosso país.”

Figurando entre os mais elaborados tributários do liberalismo igualitarista de John Dewey, Anísio Teixeira defendia uma educação em que a escola deveria ser para todas e todos, com a missão de EDUCAR ao invés de apenas instruir.

A educação, para Anísio Teixeira, deve se dedicar a formar homens e mulheres livres, em vez de mulheres e homens dóceis – como ele gostava de anotar e enfatizar.

A educação, para Anísio Teixeira, precisa preparar cada estudante para um futuro incerto, em um mundo dinâmico.

Portanto, a educação não poderia parar na transmissão de um passado meramente cronológico – como ainda é prática na maioria dos estabelecimentos de ensino e livros didáticos.

Anísio Teixeira era obsessivo: a missão do ensino só pode ser o desenvolvimento da inteligência, da tolerância e da felicidade. E é para dar conta disso que se faz necessário reformar a escola e o sistema público de ensino.

A memorização, ainda tão em voga, deveria ser substituída pela compreensão e a expressão do que fora ensinado. Mas não só: para Anísio Teixeira, o estudante precisava conquistar 'um modo de agir'.

Para ele, só aprendemos algo quando assimilamos aquilo de tal forma que, quando chegado o momento oportuno, sabemos agir de acordo com o aprendizado, orientados por ele, mas sabendo contextualizá-lo.

Segundo Anísio Teixeira, a educação não ensina apenas ideias, conteúdo ou fatos cronológicos, mas também atitudes, ideais e – principalmente – o senso crítico. Para isso, a escola deve dispor de condições para materializar a 'escola progressiva'.

Ao sistematizar e propor uma nova psicologia da aprendizagem, Anísio Teixeira obriga a escola a se transformar em um lugar onde se vive. Ou seja, é preciso experimentar, viver, e não apenas se preparar para a vida.

Em consonância com o pensamento de Lev Vygotsky (1896-1934), para Anísio Teixeira o estudante só aprende se desejar. Portanto, o interesse do aluno deve orientar tanto o trabalho do educador como o que ele vai aprender.

As ideias de Anísio Teixeira, recentemente, inspiraram a proposição de dois mecanismos: o Custo Aluno-Qualidade Inicial (CAQi) e o Custo Aluno-Qualidade (CAQ). Ambos foram criados e desenvolvidos pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação desde 2002. E constam do PNE 2014-2024.

Sem fronteiras


Sobre Anísio Teixeira, Florestan Fernandes diz: “Os sociólogos gostam de usar um conceito, empregado por [Charles] Wright Mills, o rebelde sociólogo norte-americano. Esse conceito se chama a imaginação sociológica. Com relação a Anísio Teixeira teríamos de compreender a imaginação pedagógica. (...) A imaginação pedagógica [de Anísio Teixeira] é uma imaginação que não tem fronteiras para (...) fazer da Pedagogia a rainha de todas as Ciências.”

Para Darcy Ribeiro, “Anísio Teixeira foi o educador mais brilhante do Brasil. Foi também o homem mais inteligente e mais cintilante que eu conheci. Conheci muita gente inteligente e cintilante, mas Anísio foi o mais.”

Sobre as críticas recebidas por Anísio Teixeira e os pioneiros da Educação Nova, Florestan Fernandes disse: “Há uma controvérsia a respeito da posição desses educadores, que são acusados de educadores do pensamento pedagógico burguês. De fato, estiveram vinculados ao pensamento pedagógico burguês. Mas essa pedagogia burguesa [de Anísio Teixeira e colegas] era uma pedagogia avançada, e nós, até agora, por tinturas socialistas ou marxistas autênticas, não fomos muito além, a não ser na reflexão de caráter abstrato.”

Não há dúvida de que Anísio Teixeira está entre os maiores educadores e pensadores da História do Brasil. E a grandeza de sua vida e obra deve ser motivo de orgulho para todas e todos nós, brasileiras e brasileiros.

Da minha parte, é minha maior referência, junto com Florestan Fernandes e Paulo Freire.

(Esse texto é baseado no Perfil de Anísio Teixeira que eu escrevi para a Revista do IPEA, em 2015)

VIVA ANÍSIO TEIXEIRA!!!

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Daniel Cara é professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Doutor em educação e mestre em ciência política, foi coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação. Em 2018, concorreu ao cargo de senador pelo PSOL, em São Paulo, tendo recebido 440.118 votos.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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