• Daniel Cara

Anísio, um gigante

Atualizado: Jul 25


Foto: Reprodução.

Baiano de Caetité, Anísio Teixeira foi um dos principais defensores do direito à educação no nosso país. Amigo de Darcy Ribeiro, reconhecido por Florestan Fernandes e admirado por Paulo Freire, Anísio é um gigante!


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Anísio Teixeira (1900-1971) foi incansável. Ele figura entre os principais pensadores brasileiros das ciências humanas. Nas políticas públicas educacionais e na teoria pedagógica produzida no Brasil, sua contribuição só pode ser comparada à de Paulo Freire.

Filho de Deocleciano Pires Teixeira e de Anna de Souza Spínola, Anísio é fruto de um casamento entre oligarcas. O pai era fazendeiro, médico e líder político. A mãe era membro da família Spínola, com marcante influência em toda região sertaneja da Bahia.

Anísio Teixeira estudou em colégios jesuítas até iniciar o curso de direito, no Rio de Janeiro. Formado em 1922, já em 1924 iniciou carreira como administrador público, tornando-se inspetor-geral de Ensino da Bahia aos 24 anos − cargo equivalente ao do secretário de Estado da Educação nos dias de hoje.

Graças à industrialização e à urbanização, as décadas de 1920 e 1930 foram efervescentes nas artes e nas ciências. O debate pedagógico mundial não fugia à regra: era intenso e consistente. E Anísio Teixeira estava preocupado em atualizar o Brasil frente ao mundo.

Em 1925, visitou e estudou os sistemas de ensino da Espanha, Bélgica, Itália e França. Em 1927, foi para os Estados Unidos da América, onde conheceu o trabalho de John Dewey (1859-1952). Dewey foi o filósofo e pedagogo que mais influenciou Teixeira.

Pensador

Anísio Teixeira foi um autor capaz de rever seu pensamento e práticas. Em sua primeira revisão, em 1928, sofreu o primeiro revés. Suas ideias passaram a ser consideradas demasiadamente 'progressistas'. Com isso, desagradaram o governo da Bahia, a Igreja Católica e o conservadorismo político.

As elites econômicas, políticas e religiosas (católicas) da Bahia pressionaram as autoridades baianas. Assim, foram vetadas as políticas empreendidas por Anísio Teixeira, especialmente as destinadas à democratização do ensino e à laicidade da educação.

Pressionado por conservadores, religiosos e empresários, Anísio pediu demissão da Inspetoria de Ensino da Bahia. Esse momento representa um divisor de águas em sua carreira. A partir de então, o administrador público exemplar se torna, também, pensador.


Dedicado aos estudos, Anísio ingressa na Universidade Columbia, em Nova York, onde obtém título de mestre pelo Teachers College. Assim, firma de vez seus fortes e perenes laços intelectuais com John Dewey.

No retorno ao Brasil, em 1931, estabelece residência no Rio de Janeiro. Lá ocupa a Diretoria da Instrução Pública do Distrito Federal.

Inova ao estabelecer uma ponte para aproximar o ensino fundamental e a universidade, criando a rede municipal de educação carioca – ainda hoje uma das mais vigorosas do Brasil.

Com reconhecimento nacional ascendente, Anísio foi capaz de articular um grupo de intelectuais brasileiros com o objetivo de defender a educação como alavanca para remodelar, desenvolver e democratizar o país.

Anísio Teixeira e seus colegas defendiam que apenas um sistema estatal de ensino, pautado pela liberdade e por uma pedagogia laica e contemporânea, daria as bases para a superação das desigualdades sociais brasileiras, alcançando a justiça social.

Manifesto


Chamado de Escola Nova, o movimento liderado por Anísio ganhou gradativamente força até se materializar, em 1932, em um manifesto conhecido como o 'Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova', redigido por Fernando de Azevedo. Liderados por Anísio e Azevedo, 26 intelectuais assinaram o manifesto. Essencialmente, o texto demanda a universalização da escola pública, laica e gratuita.


O manifesto consolidou uma demanda latente: a urgência pelo estabelecimento de um Plano Nacional de Educação. (Atualmente temos o PNE 2014-2024. Ele não é perfeito, mas faria o Brasil avançar. Seus méritos foram resultado da incidência da sociedade civil, em especial da Campanha Nacional pelo Direito à Educação. Porém, o PNE atual está sendo gravemente descumprido.)

A atuação dos chamados 'pioneiros da educação nova' se estendeu por décadas, não sem sofrer ataques dos empresários da educação da época e das ordens religiosas cristãs, que lucravam com a instrução das crianças e dos jovens.

Entre tantos legados, sob a liderança de Anísio Teixeira, a Escola Nova colaborou para a formação do pensamento educacional de uma nova geração de intelectuais e militantes. E serviu como referência para Florestan Fernandes (1920-1995) e Darcy Ribeiro (1922-1997), entre outros.


(Este texto é baseado no Perfil de Anísio Teixeira que Daniel Cara escreveu para a Revista do Ipea, em 2015. Continua amanhã)


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Daniel Cara é professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Doutor em educação e mestre em ciência política, foi coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação. Em 2018, concorreu ao cargo de senador pelo PSOL, em São Paulo, tendo recebido 440.118 votos.


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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