• Daniel Cara

Anísio, defensor da escola pública

Atualizado: Ago 24


Baiano de Caetité, Anísio Teixeira (1900-1971) foi um dos principais defensores do direito à educação no nosso país. Amigo de Darcy Ribeiro, reconhecido por Florestan Fernandes e admirado por Paulo Freire, Anísio é um gigante!


Segue a segunda parte do artigo (a primeira pode ser acessada aqui).


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Mesmo diante da proeminência, nem tudo eram flores para Anísio Teixeira. A criação da Universidade do Distrito Federal [no Rio de Janeiro], em 1935, e o recrudescimento das críticas ao Estado Novo resultaram em um segundo revés político.

Sendo um dos adversários mais elaborados do varguismo, Anísio volta para Caetité, onde viveu até 1945. Foi uma espécie de segundo exílio da administração pública, mas jamais da educação. Anísio Teixeira estuda e consolida a amizade com Monteiro Lobato.


Em comunicação com o amigo, Lobato vaticinou: “[Anísio Teixeira] só você tem a inteligência bastante aguda para ver dentro do cipoal de coisas engolidas e não digeridas por nossos pedagogos reformadores.”

Findo o 'segundo exílio', Anísio assumiu o cargo de conselheiro-geral da UNESCO em 1946. No ano seguinte, foi convidado a retornar ao cargo de secretário da Educação da Bahia, posição que voltava a ocupar 19 anos após sua saída da Inspetoria de Ensino.

Empossado, mais arejado e experiente, criou a Escola Parque em Salvador, localizada no vulnerável bairro da Liberdade. Como experiência de política pública, a Escola Parque é a inspiração de diversos espaços educacionais contemporâneos.

Educação integral


Com a Escola Parque, Anísio Teixeira inspirou os Cieps brizolistas da década de 1980, os CIACs do governo Collor (1990) e os CEUs paulistanos, inaugurados por Marta Suplicy no início dos anos 2000.

Nomeada oficialmente como Instituto Educacional Carneiro Ribeiro, a Escola Parque de Anísio Teixeira instituiu a educação integral de forma nuclear, promovendo, em um mesmo local, diversos direitos das crianças e adolescentes soteropolitanas em situação de vulnerabilidade.

Além de uma pedagogia inovadora no contexto brasileiro, a escola ofertava várias possibilidades de acesso à arte, educação física, oficinas culturais, etc. Com uma sensibilidade rara para a época, abrigava crianças que não tinham onde morar, tornando possível uma (con)vivência profunda e essencial com a escola.

Além de ser uma referência para políticas públicas atuais, o projeto da Escola Parque de Anísio Teixeira influenciou instituições de ensino em tempo integral em todo mundo, superando as fronteiras do Brasil.

Por seu pioneirismo – e graças à articulação internacional do idealizador –, a Escola Parque de Anísio Teixeira recebeu financiamento da UNESCO, tornando-se um dos primeiros exemplos de políticas públicas cunhadas no país a ganhar reconhecimento global.

Inep

Em 1951, Anísio Teixeira assumiu a função de secretário-geral da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), tornando-se, no ano seguinte, diretor do Inep (Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos).

O Inep, a partir do governo FHC, recebe o nome de Anísio Teixeira, o que é motivo de orgulho para os (excelentes) servidores da autarquia. O órgão se torna 'Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira'. Contudo, infelizmente, perdeu o caráter de formulação pedagógica.

Em 1959, diante da ameaça religiosa e privatista, Anísio Teixeira mobiliza um novo manifesto. O Manifesto dos educadores mais uma vez convocados'. É uma reafirmação do 'Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova', de 1932. O novo texto é publicado em 1º de julho de 1959.

Novamente redigido por Fernando de Azevedo (1884-1974) e liderado por Anísio Teixeira, o manifesto de 1959 contou (originalmente) com 161 assinaturas, entre elas: Florestan Fernandes, Antonio Candido, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, Darcy Ribeiro e Ruth Cardoso.

Ainda como militante, no final da década de 1950, Anísio Teixeira participou dos debates para a implantação da Lei Nacional de Diretrizes e Bases. Foi um incondicional defensor da educação pública, gratuita e laica.


UnB


Em 1961, Anísio Teixeira publica o 'Plano de Construções Escolares de Brasília'. O sonho era fazer da UnB [Universidade de Brasília] e desse plano um exemplo para o país. Era uma segunda tentativa, assim como Anísio já tinha tentado no antigo Distrito Federal (Rio de Janeiro).

O plano de Anísio Teixeira para Brasília contemplava: 1) Centros de Educação Elementar, com: jardim de infância, escolas-classe e escolas-parque; 2) Centros de Educação Média; e 3) Educação Superior. Com espaços compartilhados, Brasília seria uma verdadeira 'Cidade Educadora'. Percebam: muito antes das experiências de Barcelona, Toulouse, etc.

Ao lado de Darcy Ribeiro, Anísio funda a Universidade de Brasília, da qual tornou-se reitor em 1963. Próximo de sua morte, Darcy lamentava a situação em que se encontrava a UnB, anos-luz distante dos planos traçados por ele e por seu mestre e amigo.

Em 1964, com o golpe militar, Anísio Teixeira afastou-se da reitoria da UnB. Partiu para os Estados Unidos da América, onde lecionou nas Universidades de Colúmbia e da Califórnia.

De volta ao Brasil, em 1966, Anísio aceitou colocar-se como colaborador e consultor da Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro. Relatos de colegas e amigos apontam sua tristeza e contrariedade com o regime militar.

Anísio morreu em 11 de março de 1971, em circunstâncias suspeitas. Seu corpo foi achado em um elevador, em um prédio na Avenida Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.

Apesar do laudo de morte acidental (o elevador estaria quebrado), há fortes suspeitas de que Anísio Teixeira tenha sido mais uma das tantas vítimas do ditador Emílio Garrastazu Médici.

(Este texto é baseado no Perfil de Anísio Teixeira que Daniel Cara escreveu para a Revista do Ipea, em 2015. A terceira e última parte do artigo será publicada amanhã.)


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Daniel Cara é professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Doutor em educação e mestre em ciência política, foi coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação. Em 2018, concorreu ao cargo de senador pelo PSOL, em São Paulo, tendo recebido 440.118 votos.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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