• Dilvo Ristoff

Ainda pensando na vacina!

Atualizado: Abr 14


Na última sexta-feira, descobri, enfim, uma vantagem de ser velho: chegou, antes da de milhões de outros, a minha vez de me vacinar contra o coronavírus. Depois de um ano de isolamento, lá fui eu, feliz da vida, acompanhado de minha cara-metade, para tomarmos a tão esperada vacina. A caminho do drive-thru tivemos esse diálogo, mais ou menos assim:


– Só tomo – disse ela – se não for a tal da Oxford-AstraZeneca. Dizem que cria coágulos e que já matou um monte de gente na Europa.


– Quer virar jacaré ou criar barba? Então, tome a outra – eu a tranquilizei...


– Garanto que não vamos ter o direito de escolher. É um absurdo!


− Claro que não! E, pelo amor de Deus, para com essa bobagem! Nós vamos tomar a vacina que tiver e vai dar tudo certo. A AstraZeneca já foi tomada por milhões de pessoas, inclusive pelo meu irmão. Falei com ele ontem, e ele está muito bem. Fica tranquila. Tem que confiar na ciência!


− Confio na ciência! Não confio é nas pessoas. E mais: quero que tu filmes a vacinação. Não quero tomar vacina de vento. Lembra daquela enfermeira que aplicou vento?


− Lembro, mas foi só um caso... e não foi nenhum ciclone!


− Não importa! Não quero que me apliquem vento! Outra coisa: tem que se certificar de que o aplicador apertou o êmbolo ou se só fez de conta. Lembra desse caso?


− Lembro também. Lembro.


− Então, filma tudo. Quero ter a certeza de que fui de fato vacinada.


Depois desse diálogo e de exatos sessenta minutos na fila de espera, no drive-thru, qual não foi a minha surpresa quando, ao abrimos a porta do carro, a primeira coisa que a moça falou foi:


− Por favor, senhora, confira para ver se tem vacina na seringa.


− Não vejo nada – disse a minha cara-metade — Estou sem os óculos...


− A vacina está aí, sim, tranquilizou a moça. Posso aplicar?


− Pode.


Filmei tudo e pude constatar que de fato o êmbolo foi devidamente pressionado. Sem óculos, também não consegui ver se havia vacina na seringa, mas acredito que havia.


Em seguida chegou a minha vez. E não é que o sujeito que me vacinou também fez questão de me mostrar a seringa e também insistiu que eu confirmasse que nela havia vacina!


− Não vejo nada – respondi. – Preciso dos meus óculos. Só um minuto.

Pus os óculos, olhei de novo e não vi nada.


− Não vejo nada – falei.


− Aqui, disse ele, aqui.


Indicou-me onde devia olhar e então eu vi que, de fato, havia líquido na seringa. Pouquinho, quase nada, mas havia.


− Posso aplicar?


− Opa, vamos em frente!


E, assim, enfim, fui vacinado.


Saí vacinado, mas confesso que também saí com a terrível sensação de que algo está profundamente errado com o país. Desde criança, aprendi a confiar nos pais, nos irmãos, nos amigos, no médico, na enfermeira, na honestidade das pessoas em geral. Aprendi a confiar, especialmente, nas autoridades. Na escola, aprendi a confiar nos professores. Sou só eu, ou é verdade que ninguém mais confia em ninguém?

Bem, resumo da ópera: minha mulher não criou barba, nenhum de nós dois virou jacaré e minha voz continua a mesma. Mesmo assim, pelos cuidados e pela insistência dos aplicadores, fico com a pulga atrás da orelha: será que aquele líquido na seringa era vacina mesmo??? O que me tranquiliza um pouco é que, de repente, sem mais nem menos, fiquei com uma enorme vontade de aprender a falar chinês. Por isso, acho que o que injetaram em mim era mesmo vacina, a tal da CoronaVac...


(Publicado originalmente nas redes sociais do autor em 31 de março de 2021)


Confira aqui o artigo em que Dilvo Ristoff analisa comentários de leitores a esta crônica.


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Dilvo Ristoff é especialista em avaliação e doutor em literatura pela University of Southern California, nos Estados Unidos. Foi diretor de Estatísticas e Avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), diretor de Educação Básica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e diretor de Políticas e Programas da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESu/MEC). Foi também reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul. É autor e coautor de inúmeros livros, entre eles, Universidade em foco − reflexões sobre a educação superior (Editora Insular, 1999), Neo-realismo e a crise da representação (Insular, 2003) e Construindo outra educação: tendências e desafios da educação superior (Insular, 2011). Atualmente ministra aulas e orienta dissertações no Programa de Mestrado em Métodos e Gestão em Avaliação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.