• Bárbara Semerene

Desenvolvimento infantil e os adultos



Um vídeo caseiro de aniversário viralizou nas redes: a cena é a hora do parabéns de uma criança que está completando 3 anos. No momento de soprar a velinha, uma outra criança, de cerca de 6 anos (aparentemente a irmã mais velha da aniversariante), se adianta e apaga a chama antes da pequena. Diante da cara de perplexidade da caçula, a primogênita dá um sorriso de satisfação, cruza os braços, faz cara de “deboche”, joga seus cabelos atrás das orelhas com as mãos, como quem diz “bem-feito”. Mais do que rapidamente, a aniversariante reage dando muitos tapas na mais velha.


A reação de boa parte do público que recebeu e encaminhou o vídeo (muitos deles pais e mães de família), ao ver a cena de menos de um minuto, foi impiedosa com a menininha de 6 anos. “Que criança má”, “Ela é perversa, olha a cara de deboche dela”, “Isso nem parece atitude de criança”, “Se fosse minha filha, eu levaria correndo para a terapia” foram algumas das frases ditas.


Me parece que o espanto dos pais diante da cena revela o estágio primitivo em que se encontram muitos adultos em relação aos conhecimentos básicos dos estágios do desenvolvimento infantil. E quem sabe revele além: que eles próprios ainda estejam enferrujados em uma etapa lá atrás.

Piaget


O psicólogo Jean Piaget, em meados do século passado, descreveu as “leis particulares” que regem o pensamento das crianças a princípio, bastante diferentes das regras que regem (ou deveriam reger) o pensamento adulto. Ele definiu como “primitivos” a percepção e o pensamento da criança especialmente até os 7 anos de idade. O pensamento primitivo é limitado, capaz de perceber apenas a situação concreta, aparente, do aqui agora. Nesse tipo de lógica, não há espaço para refletir sob outros pontos de vista, levar em conta outras possíveis perspectivas. Não se consegue relativizar. As ideias são concretas e absolutas.

E não foi justamente assim que muitos “adultos” que assistiram à cena do aniversário se comportaram ao julgar o comportamento das duas irmãs a partir de uma cena de menos de 1 minuto de duração?


Parando para refletir e relativizar, é possível facilmente compreender o comportamento da criança mais velha. Do ponto de vista dela, quem será que apagou a chama de quem ali primeiro? Tradicionalmente, a primogênita sente que a caçula tem lhe “roubado a cena” desde que nasceu, o que é reforçado no dia do aniversário da pequena. Parece mais do que natural que a mais velha, ao sentir-se “apagada” pela irmã mais nova, fique genuinamente feliz em ver que conseguiu, por um segundo, roubar a cena ao apagar a vela de aniversário dela. Nessa perspectiva, o comportamento que em um primeiro momento pareceu moralmente incorreto ganha razoabilidade.


Desde Piaget é sabido também que, nessa idade (e pelo menos até por volta dos 7 anos) toda criança é egocêntrica. Isso quer dizer que ela se concentra primordialmente sobre o seu próprio eu, interesses e prazeres. Ela acredita que todos entendem as coisas do jeito que ela entende, sabe como ela se sente e sente como ela sente. Tem dificuldade para entender que suas próprias crenças podem ser falsas.


Segundo Piaget, a partir dos 8 anos é que a criança começaria a desenvolver o tipo de pensamento que leva em conta vários aspectos de uma situação. Seria também a partir dessa idade que se desenvolvem o “senso de justiça” e julgamentos morais que consideram o “grau de transgressão” e a intenção. Nessa fase, começa a haver flexibilidade na hora de avaliar uma situação, e é possível observar que há vários pontos de vista e não um único padrão de certo e errado.


Lógica primitiva


A reação do público ao vídeo me fez questionar o quanto de fato o pensamento se desenvolve ao longo da vida. E o quanto de nós ou de partes de nós permanecem estagnadas em uma lógica primitiva, do “infantil”. Quantas vezes deixamos de usar a capacidade de considerar a ampla variedade de estados mentais humanos, de estágios de vida e o entendimento de que os outros têm suas próprias crenças, desejos e intenções particulares? Quantas vezes raciocinamos a partir de uma lógica egocêntrica? Quantas vezes “punimos” o comportamento das crianças, pressupondo que elas são capazes de pensar pela lógica de um adulto e de lidar com seus próprios sentimentos, avaliar as situações e reagir a elas como um adulto?


A educação das crianças passa por transmitir aos filhos princípios éticos a partir das situações que vão surgindo, como a que foi apresentada no vídeo, que são boas oportunidades para isso. Mas, além de ensinar o “correto” e o “justo” para os filhos, educar também passa por dar a eles senso crítico e ferramentas para relativizarem inclusive as regras que os próprios pais ensinam a eles, a ponto de poderem também ampliar os pontos de vista de seus cuidadores. Importante transmitir a noção de que muitas vezes o errado nos parece certo e o certo nos parece errado à primeira vista. Não é raro cairmos nessa armadilha. Talvez porque não nos ensinaram quando pequenos. Mas nunca é tarde para ressignificar o aprendido em vez de apenas reproduzi-lo. Transgredir, afinal, pode ser positivo.


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Bárbara Semerene é jornalista e psicanalista em formação, especialista em Gestão de Comunicação e Marketing pela Universidade de São Paulo (USP). Foi docente no departamento de Jornalismo do Instituto de Ensino Superior de Brasília (Iesb). Atuou como editora de conteúdo da Rede Universia, portal de educação do Grupo Santander, e em revistas femininas e jornais. Colaboradora do livro Sexo, afeto e era tecnológica, da Editora UnB. Seus textos podem ser acompanhados pelo Instagram @barbara_semerene.


O artigo acima é de responsabilidade da autora e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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