• Ronaldo Mota

Adeus ao emprego



O significado da palavra emprego vem se moldando ao longo dos tempos. Nos séculos recentes, os avanços tecnológicos têm promovido alterações no mundo dos trabalhadores sem paralelo na história anterior, seja deslocando-os de uma área para outra, bem como alterando as naturezas de seus ofícios.


No Brasil, até o século XIX, a maioria das oportunidades de trabalho estava no meio rural. A partir do século XX, juntamente com a urbanização progressiva, parte das ocupações agrícolas deu espaço para novos empregos nas indústrias e nos diversos setores de serviços nas cidades.


O trabalhador típico, inicialmente, tinha como cenário simbólico a fazenda, onde habitava permanentemente. Migramos, em seguida, para a imagem da fábrica e suas linhas de montagens. Por sua vez, neste início de século XXI, a representação equivalente ainda não está bem definida, mas tendemos a imaginar algo independente de espaço e tempo.


As tecnologias digitais têm seus avanços mais recentes marcados pelo advento de automação em um grau superior, o uso intenso de ciências dos dados e das analíticas associadas e pelo emprego de inteligência artificial baseada em aprendizagem de máquinas.


Essas novidades terão como consequência o desaparecimento de muitos ofícios e, simultaneamente, farão surgir ou reforçar um conjunto de outras ocupações. Entre elas, especialistas em computação na nuvem, marketing digital, analistas de dados, especialistas em inteligência artificial e segurança da informação, desenvolvedores e analistas de sistemas, além de outras profissões menos digitais, a exemplo de cuidadores de idosos, promotores de felicidade, gestores ambientais integrados a terapias alternativas, curadores de memórias pessoais etc.

Atualmente, em torno de 75% da força produtiva se dedicam ao setor de serviços, 13% estão nas indústrias e somente 5% permanecem alocados no campo. Todos esses setores estão sendo aceleradamente automatizados. Não é claro como evoluiremos. Máquinas não substituirão simples e imediatamente todas as pessoas; ao contrário, demandarão novos profissionais para criá-las, gerenciá-las e complementá-las. Além do fato evidente de que, em um certo conjunto de atividades, especialmente aquelas associadas às relações interpessoais, a adoção de máquinas, mesmo daquelas que aprendem, não será imediata, fácil ou mesmo viável.


Simbiose homem-máquina


Os novos processos produtivos, fruto da incorporação das tecnologias inovadoras, implicam entender profundamente a "simbiose homem-máquina". Do ponto de vista educacional, ainda estamos muito incipientes em estabelecer como formar gente para gerir, acompanhar ou mesmo garantir a segurança de tais ambientes simbióticos. Sabemos que os procedimentos e pedagogias, que foram um sucesso no século anterior, não mais dão conta dos novos desafios.


Por outro lado, paradoxalmente, é provável que aqueles mestres, que souberam tão bem resolver as missões anteriores, sejam fundamentais e estratégicos para colaborar na construção das abordagens apropriadas para dar conta das tarefas educacionais atuais. Via modelos híbridos e flexíveis de aprendizagem, fazendo intenso uso de plataformas inteligentes, com adequado tratamento de dados, analíticas, laboratórios de simulação etc., será possível aos educadores conhecer profundamente os educandos, viabilizando trilhas personalizadas compatíveis com as características únicas de cada aluno.


Adeus ao emprego, pelo menos nas formas que estávamos acostumados a conhecer, e bem-vindas as novas oportunidades, sobre as quais vislumbramos somente parte delas. Caberá, portanto, aos educadores e às instituições educacionais decifrarem este futuro próximo e estarem preparados para cumprir suas missões específicas de formação para um mundo complexo de aprendizagem permanente ao longo de toda a vida.


[Texto publicado originalmente nas redes sociais do autor]


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Ronaldo Mota é diretor científico da Digital Pages e membro da Academia Brasileira de Educação. Atua nas áreas de Novas Tecnologias e Metodologias Inovadoras em Educação. Foi chanceler e diretor executivo de Educação a Distância do Grupo Estácio, reitor da Universidade Estácio de Sá, professor titular de Física da Universidade Federal de Santa Maria, pesquisador do CNPq, secretário nacional de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação, secretário nacional de Educação Superior, secretário nacional de Educação a Distância e ministro interino do Ministério da Educação. Realizou pós-doutoramentos nas universidades de Utah/Estados Unidos e da Columbia Britânica/Canadá e foi professorial visiting fellow no Instituto de Educação da Universidade de Londres/Reino Unido, tendo sido condecorado pela Presidência da República do Brasil como Comendador, na Classe Grã-Cruz, da Ordem do Mérito Científico Nacional. Editor da Coluna reitoronline do Portal iG e Autor Convidado do Blog CISCO #EducationNow series (USA).


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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