• Dilvo Ristoff

A universidade é capaz de salvar o planeta?


Foto: The New York Public Library / Unsplash

"Nós reconhecemos que erradicar a pobreza em todas as suas formas e dimensões, incluindo a pobreza extrema, é o maior desafio global e um requisito indispensável ao desenvolvimento sustentável.”

Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas


“Sejam realistas, exijam o impossível”

− Grafite em uma ponte de Paris em maio de 1968


Fica a cada dia mais evidente que o nosso futuro no planeta depende da nossa capacidade de enfrentar os desafios globais da humanidade (as mudanças climáticas; a segurança alimentar; o manejo da água; o diálogo intercultural; as energias renováveis; a saúde pública; o desenvolvimento sustentável; a construção da paz; a defesa dos direitos humanos; a defesa dos valores democráticos, etc.) e que estes desafios, para serem adequadamente enfrentados, precisam da atuação decisiva dos talentos de professores, cientistas e estudiosos das universidades mundo afora.


Dada a diversidade e a complexidade desses desafios, maior será a contribuição das universidades se os saberes que forem gerados em uma área do conhecimento não ficarem trancafiados em compartimentos hermeticamente fechados e se tiverem a porosidade que permita a contaminação positiva de outros saberes. A menos que as ciências, aí incluídas todas as ciências (exatas, da natureza, sociais e humanas) e as artes enfrentem esses grandes desafios de forma integrada, sua contribuição à busca de soluções será pífia, pois suas propostas não terão nem a abrangência nem a compreensão do sentimento de urgência que o momento requer.

Na era do Antropoceno – termo cunhado, há 21 anos, por Paul Crutzen, Prêmio Nobel de Química, para descrever os dias atuais, em que os humanos passaram a ter presença marcante na Terra – um tempo, como o tempo presente, em que a atividade humana se mostra tão poderosa a ponto de ser capaz de influenciar o próprio clima e o meio ambiente do planeta, o desafio maior surge em alta resolução: salvar o planeta.


Há, pelo que pude constatar, os que não gostam do termo “antropoceno”, porque, segundo eles, o grande impacto da presença humana no planeta sequer começou. Seria, portanto, se entendi bem, nada mais que uma espécie de ponto de inflexão do período quaternário do holoceno da era Cenozoica!!!! Como contraponto, outros, ironicamente, insistem em que, nessa linha de raciocínio, a julgar pela grande quantidade de dinossauros à nossa volta (em geral identificáveis pelas cores de suas vestes!), sequer saímos da era Mesozoica... Mas, deixemos isso para quem entende do assunto!


O fato é que os estudiosos estão convictos de que as mudanças climáticas de hoje não são resultado de fenômenos naturais: elas são, pelo menos em grande parte, causadas por ações humanas. Há anos, esses estudiosos alertam que, diante das intensas emissões de carbono na atmosfera (segundo o ClimaInfo de 8 de junho de 2021, a atmosfera contém, hoje, 50% a mais de dióxido de carbono do que no início da Revolução Industrial) e do descomunal descarte de materiais plásticos na terra, nos rios e nos mares, da poluição generalizada, dos gases de efeito estufa, do aquecimento global, de eventos climáticos e desastres naturais cada vez mais frequentes e extremos, do derretimento das calotas de gelo dos polos, do aumento do nível do mar, etc. etc. etc., o problema da sustentabilidade da vida no planeta se agiganta de forma assustadoramente célere. Antes, portanto, que o processo de deterioração climática se torne irreversível, faz-se urgente a integração das ciências e o esforço conjunto dos povos do mundo.


A agenda da sustentabilidade


É justamente neste contexto de uma possível irreversibilidade das condições planetárias para abrigar a vida que surge a Agenda 2030 das Nações Unidas, com as suas 17 metas para o desenvolvimento sustentável. É importante lembrar que o estabelecimento dessas metas está baseado na compreensão de que as ameaças, criadas pelos seres humanos, podem e devem ser enfrentadas pelos seres humanos, pois não se tem notícias de alienígenas dispostos a cuidar do planeta por nós.


Proteger o planeta, portanto, impedindo a sua degradação, significa a possibilidade de garantir que as necessidades de todas as pessoas (não apenas as de algumas!) em todas as nações do mundo (não apenas em algumas!) possam ser adequadamente atendidas, assegurando às gerações futuras uma vida digna, de prosperidade, com o desenvolvimento econômico, social, cultural, artístico e tecnológico embasado numa relação harmônica com a natureza.


É importante destacar que os formuladores da Declaração da Agenda 2030 perceberam que a questão ecológica é hoje a que pode e deve nos unir como seres humanos, como pessoas que compartilham a mesma casa e que, portanto, para que essa casa não deixe de ser o nosso santuário, o nosso porto seguro, é fundamental que trabalhemos as nossas diferenças e divergências, movidos por essa causa comum maior: salvar o planeta!


Ao contrário do que possa parecer, no entanto, as 17 metas do desenvolvimento sustentável estão longe se esgotar na questão do clima ou na poluição dos oceanos, rios, fontes d´água, aquíferos, manguezais, florestas, vida selvagem, desertos, reciclagem do lixo e coisas do gênero. O texto habilmente inclui o ser humano como parte integrante, indissociável do conjunto dos ecossistemas do planeta e o define como protagonista das ações que podem levar à nossa salvação ou perdição. Por isso mesmo, não surpreende que a expressão mais encontrada no texto da declaração seja, em inglês, “for all” ou, em português e espanhol, “para todos”.


Esta expressão que, para as viúvas da Guerra Fria, passou a ser prova inconteste de que os comunistas tomaram conta da Organização das Nações Unidas, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de outros organismos internacionais, com alguma variação, aparece cerca de 200 vezes no texto. Isso significa dizer que a água potável e o saneamento devem ser providos para todos, não para alguns (Meta 6); a energia deve ser não só renovável, mas assegurada para todos (Meta 7); o crescimento econômico deve ser não só sustentável, mas também capaz de assegurar emprego e trabalho decente para todos (Meta 8); a industrialização e a inovação devem ser não só sustentáveis e resilientes, mas também inclusivas, o que significa dizer que devem estar a serviço de todos (Meta 9); a justiça deve ser acessível a todos (Meta 16); o meio ambiente deve ser saudável para contribuir com o bem-estar de todos em todas as idades (Meta 3); o acesso a cuidados de saúde e à proteção social deve ser garantido a todos (Meta 3.8); o respeito aos direitos humanos e às liberdades individuais deve valer para todos, independentemente de raça, cor, sexo, crença religiosa, status social, nacionalidade, preferência política ou outra; a dignidade e a igualdade devem ser direito de todos, estejam onde estiverem (Metas 10 e 16), e as parcerias internacionais não devem ficar restritas ao G6, G8 ou G20, mas devem contar com a aprovação e participação de todos os países, não apenas de alguns (Meta 17); o acesso à educação de qualidade deve ser direito de todos, em todos os níveis e ao longo de toda a vida (Meta 4); a igualdade de gênero deve ser buscada em todas as nações e o empoderamento deve ser estendido a todas as mulheres e meninas, não apenas a algumas (Meta 5). Em suma, um dos princípios que norteiam a Agenda 2030 é a preocupação com as pessoas, em especial com as mais pobres, vulneráveis, esquecidas, as sem vez nem voz e que mais necessitam de apoio.

Todas as culturas e civilizações podem e devem contribuir para o sucesso da Agenda e são agentes cruciais para o desenvolvimento sustentável. A determinação da Agenda 2030 é clara: “Construir um futuro melhor para todas as pessoas, incluindo os milhões a quem tem sido negada a oportunidade de viver uma vida decente, digna e promissora e de desenvolver plenamente o seu pleno potencial humano.” Um futuro sem pobreza, sem fome, sem doenças e carências (Metas 1 e 2), onde a vida possa desabrochar em todas as suas formas e exuberância, depende, portanto, desse grande pacto entre todos nós habitantes do planeta ou, nas palavras da Agenda 2030, de todos nós, “nós, os povos do mundo”.


Universidades mobilizadoras


Para que isso seja possível é necessário reunir os cérebros, as sensibilidades, as energias criativas e as capacidades humanas instaladas nas várias instituições mundo afora, entre elas, as universidades. Segundo Federico Mayor Zaragoza, ex-diretor geral da UNESCO, “de uma perspectiva global, as universidades deveriam ser as principais responsáveis por mobilizar os cidadãos do mundo, buscando uma nova maneira de abordar as presentes tendências. Seria um erro histórico não agir com firmeza e imediatamente no sentido de se contrapor às muitas correntes ignorantes e ideologicamente tendenciosas, patrocinadas por líderes irresponsáveis” (p.75). Essas correntes ignorantes, de que fala Zaragoza, levadas que são por interesses menores, utilitaristas e imediatistas de líderes do caos, lamentavelmente parecem prosperar especialmente entre as vítimas mais evidentes do que Alvin Toffler denominou ainda nos anos de 1970 de “choque de futuro”: os adeptos do negacionismo e do especialismo isolacionista.


As soluções e ações a serem buscadas para cada uma das 17 metas da Agenda 2030 devem estar sustentadas não em crendices, mas em conhecimento. Refiro-me não ao conhecimento limitado a uma disciplina, não trancafiado em torres de marfim, mas ao conhecimento multidisciplinar, interdisciplinar e transdisciplinar, com acesso democratizado. Embora a busca de soluções dependa de muitos grupos de interesse e, certamente, de governos, é evidente que as universidades, como casas que abrigam as mais distintas áreas do saber e onde são identificados os talentos para estudos aprofundados, são absolutamente essenciais.

É difícil, por exemplo, pensar em alimentação saudável sem considerar a nossa capacidade de tornar o solo fértil e produtivo, sem envenenar o ar, os rios e as plantas. Ou seja, é impossível pensar nessas questões sem envolver um grande número de atores de várias áreas do conhecimento da universidade (e.g., agronomia, aquicultura, biologia, microbiologia, química, etc.).


Da mesma forma, é impossível imaginar que o acesso de todos à Justiça, à água potável, ao saneamento básico, à saúde e à educação passe a existir como num passe de mágica, só porque há especialistas em direito, especialistas em água e saneamento, médicos, enfermeiros, farmacêuticos ou pedagogos. Precisamos de todos eles, mas é evidente que não podemos depender só de médicos para garantir médicos para todos (vejam a resistência dos médicos ao programa Mais Médicos do governo Dilma; vejam as tentativas da corporação médica de brecar a abertura de novos cursos de medicina desde 1970 e que perdura até hoje). Da mesma forma, não podemos depender exclusivamente dos bacharéis em direito e, mais especificamente, de advogados e juízes para garantir o acesso de todos à Justiça. Isso só poderá acontecer quando as várias corporações profissionais e as diferentes instituições da sociedade conseguirem resistir à força da gravidade dos respectivos umbigos.


E, claro, como já destacava Francis Keppel, ex-diretor de pós-graduação em educação da Universidade de Harvard, a educação é importante demais para deixá-la exclusivamente entregue aos educadores”. Terrivelmente desastroso, poderíamos acrescentar, é deixá-la entregue exclusivamente a políticos, empresários, economistas e pastores. A educação, como sabemos, interessa a muitos grupos de interesses (alunos, pais, professores, pesquisadores, psicólogos, empregadores, governos, Estado, sociedade em geral) – interesses que nem sempre são apenas distintos; às vezes são claramente antagônicos e irreconciliáveis, o que torna o espaço educacional uma importante arena de permanente tensão e disputa.


Educação para a cidadania


De todo modo, para que os bens públicos acima referidos estejam disponíveis, para todos, como quer a ONU, é fundamental que pensemos também em educação sociológica, ética, política, administrativa e econômica, em educação para a cidadania – a educação por excelência das humanidades e das ciências sociais e sociais aplicadas. Isso nos dá garantia de sucesso? Não, não dá! Há quem argumente que, para conseguir a paz, temos que nos preparar para a guerra e preferir o fuzil ao feijão. Não é essa a visão da Agenda 2030, que acredita que para conquistar a paz é fundamental nos educarmos, como sociedade planetária, para construir a paz, aprendendo, entre outras, a importância da inclusão, da liberdade, da convivência com as diferenças, do respeito mútuo, da convergência de esforços. Pode que, mesmo assim, não logremos êxito, mas, com certeza, as nossas chances melhoram consideravelmente.


Sejamos claros: só faz sentido insistir, como faz a Agenda 2030, na necessidade de lutar pelo bem-estar dos indivíduos e pelo desenvolvimento do seu pleno potencial humano, com tolerância às diferenças, com respeito mútuo, com solidariedade, com cidadania global, com paz mundial, com igualdade de gênero, com liberdade de expressão, etc. etc. se o sistema educacional for capaz de criar ambientes de aprendizagem onde essas questões sejam tratadas, discutidas, pesquisadas e aprofundadas. Isso não se dará fazendo de conta que o problema não existe nem tampouco enterrando-se no laboratório especializado no estudo da propulsão das asas da mosca varejeira, por mais importante que esse estudo possa ser e é. O pleno potencial humano não pode prescindir das humanidades, das licenciaturas, das ciências sociais aplicadas, da poesia, da literatura, das artes, da história, etc. Sem elas, essa meta não tem a menor chance de êxito. Primeiro, porque esquece o compromisso histórico e elementar da universidade com a educação básica de nossos filhos e filhas, assegurada pela formação de professores. Segundo, porque se trata de um reducionismo brutal do significado de ser humano, cujas necessidades ultrapassam em muito a utilidade da cenoura ou da batata. Estas enchem a pança, é verdade, mas a alma também precisa de outro tipo de alimento – alimento que vem de coisas muito distintas: da beleza das rosas, da poesia, da música, da arte, do prazer de descobrir, de aprender, de criar, de sentir, de conviver, do senso de justiça, etc. Como bem lembrava o crítico português Vítor Manuel de Aguiar e Silva, são muitos os humanos que preferem andar de “calças cerzidas e meias furadas” a viver sem poesia. Terceiro, significa, como diria Bertrand Russell, roubar de nós aquelas fortes paixões que nos movem como gente e que são as paixões que fazem a vida humana valer a pena: a busca do amor, a busca do saber e a solidariedade com os que sofrem. Por último, significa deformar e deturpar o significado clássico de Universidade, com U maiúsculo – a busca do belo, do verdadeiro e do justo, da arte, da ciência e da justiça. A menos que as universidades abracem e integrem essas três paixões, sua contribuição para a busca de soluções para o desenvolvimento sustentável será, na melhor das hipóteses, pequena, pois os desafios globais clamam por cidadãos altamente qualificados e não por bárbaros tecnicamente bem municiados.



Em busca do impossível


Por tudo isso, é inegável que, para as universidades, está reservado um papel central no enfrentamento dos grandes desafios na era do Antropoceno. Às vésperas da terceira Conferência Mundial de Educação Superior da UNESCO, a ser realizada em maio próximo, em Barcelona, na Espanha, entendo que chegou a hora de elaborarmos propostas capazes de iluminar os caminhos para o enfrentamento dos grandes desafios de nosso tempo. Afinal, se nós, humanos, ao somarmos a nossa criatividade com uma boa dose de teimosia e estupidez, conseguimos alterar a temperatura e o clima do planeta, degelar os polos, aumentar a força e a intensidade dos ventos, influenciar o regime das chuvas e das marés, e tantas outras coisas que tendem a nos colocar na lista das espécies ameaçadas de extinção, por que não conseguiríamos superar as ameaças à nossa própria existência? Se soubermos juntar as nossas energias criativas a uma boa dose de solidariedade e cidadania global, as ciências e as artes estarão a serviço da vida. Impossível? Talvez! Mas, dada a urgência que os desafios nos impõem, este é o momento de ser realista e exigir o impossível. Até porque, como disse certa feita Albert Einstein: “Todo mundo sabia que era impossível fazer aquilo, até o dia em que um tolo, que não sabia, apareceu e fez.”


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Dilvo Ristoff é especialista em avaliação e doutor em literatura pela University of Southern California, nos Estados Unidos. Foi diretor de Estatísticas e Avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), diretor de Educação Básica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e diretor de Políticas e Programas da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESu/MEC). Foi também reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul. É autor e coautor de inúmeros livros, entre eles, Universidade em foco − reflexões sobre a educação superior (Editora Insular, 1999), Neo-realismo e a crise da representação (Insular, 2003) e Construindo outra educação: tendências e desafios da educação superior (Insular, 2011). Atualmente ministra aulas e orienta dissertações no Programa de Mestrado em Métodos e Gestão em Avaliação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.