• Dilvo Ristoff

A surpresa de Doha

Atualizado: Jun 10



E um belo dia, em 2009, recebi um convite inusitado: participar da primeira WISE (World Innovation Summit for Education). Em português WISE teria o pomposo nome de Cúpula Mundial para a Inovação na Educação. Fui informado de que eu era um dos mil convidados para o evento. Se fiquei lisonjeado com o convite? Claro que sim, mas, desconfiado como sou, fiquei também intrigado.


– Por que diabos me convidaram? Alguém deve ter lido algo que escrevi e achado interessante – pensei com os meus botões. – Mas, o quê? Vai ver que tenho por aí um influente amigo secreto.


Mesmo sem saber a origem do convite, a possibilidade de conhecer Doha me pareceu irrecusável! Até porque tudo – passagem aérea, hotel, alimentação – era patrocinado pela Qatar Foundation, aquela mesma que vemos estampada nas camisetas do time do Messi. Futebol? Educação? Algo parecia não estar certo, mas enfim!


Desconfiado com tanta generosidade, vinda de tão longe e de um ambiente para mim tão desconhecido, liguei para alguns amigos da educação para perguntar se sabiam da existência dessa tal de WISE. Vasculhei a internet, pesquisei sobre o Qatar, busquei informações junto à embaixada e, tendo descoberto que o evento era responsabilidade de ninguém menos que a Sheikha Mozah, a segunda das três esposas do Emir, respondi que aceitava o convite. Em seguida me enviaram as orientações, pedindo cópia de passaporte, mais alguns dados pessoais, um minicurrículo, fotografias, etc. etc. Alguns dias depois, me informaram que o visto qatari, o bilhete da passagem aérea e a reserva de hotel seriam enviados em breve.


Quando a passagem, a reserva de hotel e o visto chegaram – o visto todo escrito em árabe – fui comunicado que alguém estaria me esperando no aeroporto e que eu seria encaminhado para uma sala especial e de lá levado para o meu hotel. Ao me debruçar sobre os documentos recebidos, mais uma surpresa: o hotel era simplesmente o Four Seasons. Para os que, como eu, estão acostumados com os Ibis da vida, o Four Seasons não era apenas um hotel excelente: era o paraíso.


– Tudo bom demais! – pensei. – Inacreditável!


Ainda meio surpreso com tanta generosidade, resolvi seguir em frente. No dia da viagem, saí de madrugada de Chapecó até Florianópolis. De lá voei até São Paulo; de São Paulo até Milão; de Milão até Doha. Com os tempos de espera em cada aeroporto, devo ter ficado em trânsito por mais de 20 horas. Sim, é longe! Não é exatamente o outro lado do mundo, mas quase.


E, de fato, conforme o prometido, ao chegar a Doha, já moído pelo cansaço da longa viagem, fui recepcionado por uma jovem senhora, que falava inglês perfeito, e que me conduziu, sem passar por alfândega ou qualquer fiscalização, até uma ampla sala do aeroporto, com confortáveis poltronas. Na sala, onde estavam sendo servidos café, chá, sucos, refrigerantes, salgadinhos, doces, bolos e outras guloseimas, havia cerca de 20 pessoas. A jovem, sempre atenciosa, me explicou que todos eram participantes do evento e que, em alguns minutos, seríamos levados aos nossos respectivos hotéis.

Saboreei algumas das muitas guloseimas e já trocava algumas palavras com um professor indiano que, se bem me lembro, era da Barefoot University, quando a jovem veio e me perguntou se eu me importava em dividir um táxi com outro participante, que estava hospedado no hotel ao lado.

– Claro que não! – respondi. – Será um prazer.


Não via a hora de chegar ao Four Seasons. Foi então que ela me apresentou ao professor Blanco, um italiano de Milão, que, pelo que pude inferir, era um ardoroso defensor do PBL, o tal do Problem-Based Learning. A jovem então nos levou até o táxi e partimos. A conversa no caminho foi cordial e sobre generalidades, com muitos comentários sobre a arquitetura da cidade de Doha, com obras por toda a parte, até que o professor Blanco se lembrou que tinha lido recentemente um artigo que afirmava que o Brasil havia se tornado a sexta maior economia do mundo. A partir daí, só falou nisso! Queria porque queria saber tudo sobre aquele presidente metalúrgico que estava a liderar o que ele descreveu como o novo Brasil potência.


Chegamos primeiro ao meu hotel e, como a conversa entre nós estava animada, continuamos conversando por mais alguns instantes, mesmo depois de que a porta do táxi tinha sido aberta. Trocamos cartões de visita e, dando sequência às gentilezas, ficamos de continuar a prosa no dia seguinte, no evento.


Mal pus os pés para fora do táxi, e qual não foi a minha surpresa ao ouvir, em português perfeito:


– Bem-vindo a Doha, professor Dilvo. Como vai? Fez boa viagem?


Olhei para o sujeito à minha frente, magro, alto, vestindo um colete branco do Four Seasons, e não quis acreditar: diante de mim estava ninguém menos do que Jerry, o meu ex-aluno do curso de Letras.


– Jerry, professor! Jerry, não lembra? – apressou-se em dizer, imaginando que talvez eu não me lembrasse.


Como não me lembraria de Jerry, um dos melhores alunos da classe e a quem, depois que ele me dissera que era fã de Seinfeld, em tom de brincadeira, eu chamava de Seinfeld.


– Jerry! Jerry Seinfeld, meu Deus, o que é que tu fazes aqui no outro lado do planeta?


– É o que estás vendo, professor. Trabalho no hotel – e apontou para o uniforme.


– Estás brincando! Sério? Num hotel em Doha? Sério?


– Sério, professor!


– Estás bem? – perguntei. Antes que ele pudesse responder acrescentei: — A julgar pelo hotel, deves estar muuuito bem... e nas quatro estações...


– Ótimo, professor – ele riu. – Bom vê-lo outra vez, professor!


Pegou a minha mala e me levou até o check-in e, depois de me conduzir até o meu apartamento, voltou ao seu trabalho para recepcionar os próximos hóspedes.


Nos dias seguintes, o encontrei algumas vezes no lobby do hotel. Numa delas ele me explicou que, depois de formado, foi trabalhar por quase dois anos numa escola pública. Para complementar o salário, foi trabalhar também numa segunda escola – uma escola de línguas estrangeiras. Disse que gostava do trabalho em sala de aula, mas que era estressante, tinha pouco tempo para preparar as suas aulas, sempre com pilhas de coisas para ler e corrigir, provas e exercícios para preparar nos fins de semana... E o salário era ruim, e a carreira prometia só a velhice com uma aposentadoria precária. Além disso, não gostava do diretor interventor e do ambiente desleixado da escola como um todo – o pátio malcuidado, o banheiro sujo, a porta da sala de aula que arranha o assoalho e não fecha nem abre direito, os cupins nos armários, o ventilador barulhento, o ar-condicionado que, quando tem, funciona quando quer, etc. Insatisfeito, decidiu que poderia ser uma boa conhecer outros países, de preferência países onde pudesse ficar bem distante de tudo isso. E começou a procurar. Descobriu o Qatar, com uma população menor que a de algumas capitais brasileiras. E lá estava Doha, uma cidade moderna e em construção. Achou que valia a pena se aventurar. Estava em Doha havia três anos, e bem, me garantiu. O trabalho era agradável, o salário permitia que vivesse confortavelmente e lhe permitia participar de outros projetos de seu interesse.


– Nenhuma saudade da escola, Jerry?


– Alguma. Em especial da sala de aula e dos alunos. Do resto, não! Deixei a escola porque não vi futuro! Dessa Road Not Taken – disse, com um suspiro, lembrando um poema de Robert Frost que lemos em aula – e recitou em inglês – somewhere ages and ages hence, acho que sentirei mais alívio do que arrependimento. Se pudesse trabalhar numa única escola, numa escola de tempo integral, bem equipada, com boa biblioteca, bons laboratórios, com espírito de casa, com carreira promissora, salário decente, eu até voltaria. Como isso só vai acontecer quando eu estiver velhinho e caquético, acho que vou ficar por aqui mesmo...


Depois disso, só trocamos rápidas palavras, pois o evento ocupou quase todo o meu tempo.


Ah, sim, o evento! Pois, o evento foi um show! Bem maior do que eu tinha imaginado! As palestras foram mediadas por profissionais e personalidades da televisão Al Jazeera – todos falantes de um inglês britânico de dar inveja aos melhores repórteres da BBC. Logo percebi que, no evento, além de acadêmicos, havia um mundo de outras pessoas – pessoas ligadas à telefonia, às modernas tecnologias, gente como Biz Stone, um dos criadores do Twitter, Sugata Mitra, o homem do Hole in the Wall, dos computadores nos buracos das paredes, o pessoal da Nokia, da Apple, diretores de cinema, um ex-primeiro-ministro da Alemanha, a esposa do presidente francês, a bela Carla Bruni, o pessoal da OCDE, da UNESCO, docentes, pesquisadores, inovadores de grandes universidades mundo afora, entre muitas outras personalidades.


O jantar de gala foi um show à parte: precedido por um maravilhoso concerto de alaúde, daqueles de arrepiar, seguiram-se discursos de boas-vindas, de agradecimento, e a presidenta da Fundação Qatar, a impressionante e maravilhosa Sheikha Mozah bint Nasser, falou de seus planos para a WISE, da importância da educação, da necessidade de valorizarmos a inovação, da sua satisfação com a realização do evento, etc. etc. etc. Agradeceu a todos pela presença e nos convidou a desfrutarmos do opíparo repasto (Ufa!!! Consegui enfim usar essa expressão depois de 55 anos!!!) a ser servido em seguida.


Um pouco antes da fala da Sheikha, o representante da Nokia, sentado ao meu lado, que aliás me surpreendera pela manhã ao achar que eu estava sendo gentil demais na minha crítica à falta de sensibilidade da tela do telefone da Nokia, confidenciou que estava louco de fome e me perguntou de que canto da sala eu achava que viria a comida.


– Quem tem fome tem pressa – pensei.


E só então me dei conta de que realmente poderia demorar uma eternidade para servir os mais de mil presentes, distribuídos em mesas de seis pessoas cada. Eu ainda fazia os cálculos de quantas mesas havia (deviam ser mais de 200) e eis que, de repente, surge um exército de meninas, todas do mesmo tamanho, todas com mais ou menos 1,60 metro de altura, vestindo as mesmas roupas, com o mesmo penteado, como se tivessem saído de uma fábrica de gente da Indonésia. Desfilaram em fila única até um ponto central do salão e de lá seguiram pelos corredores levando os pratos a cada uma das mesas. Em dois ou três minutos estávamos todos servidos. Foram ruidosamente aplaudidas pela rapidez, pela eficiência e, certamente, pela coreografia!


Hoje, passados mais de dez anos, embora ainda guarde essas e outras boas lembranças dos dias que passei em Doha, devo dizer que lembro menos das interessantíssimas palestras a que assisti do que das palavras do meu ex-aluno: deixei a escola porque não vi futuro.


A presença de Jerry em Doha não foi para mim só uma surpresa, foi também mais uma oportunidade para refletir sobre as licenciaturas, a falta de professores em nossas escolas e a falta de perspectiva profissional para os que resistem. A sua trajetória nos ajuda a entender um pouco das causas e das consequências da evasão de nossos professores formados. Para mim, acostumado com a análise dos números da educação, Jerry confirmou o que eu já sabia havia algum tempo e que vale para a grande maioria das disciplinas: não faltam professores formados no Brasil; faltam professores formados em nossas salas de aula. E tudo indica que continuarão a faltar, enquanto conseguirmos dormir tranquilos com esse barulho.


* * *


Dilvo Ristoff é especialista em avaliação e doutor em literatura pela University of Southern California, nos Estados Unidos. Foi diretor de Estatísticas e Avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), diretor de Educação Básica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e diretor de Políticas e Programas da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESu/MEC). Foi também reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul. É autor e coautor de inúmeros livros, entre eles, Universidade em foco − reflexões sobre a educação superior (Editora Insular, 1999), Neo-realismo e a crise da representação (Insular, 2003) e Construindo outra educação: tendências e desafios da educação superior (Insular, 2011). Atualmente ministra aulas e orienta dissertações no Programa de Mestrado em Métodos e Gestão em Avaliação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.