• Gina Vieira Ponte

'Anne' e a educação na pandemia

Atualizado: Mai 16


Muitas pessoas tinham me recomendado ver a série Anne with an ‘E’, mas ainda não tinha achado tempo para assistir. Depois que eu vi, desconfio que devo ter sido uma das últimas pessoas a prestigiá-la, porque, de fato, ela justifica o sucesso que dizem ter.

É uma série canadense longa, com 27 episódios ao todo, organizados em três temporadas, muito bem produzidas. É baseada no livro Anne de Green Gables, de 1908, de autoria de Lucy Maud Montgomery, e adaptada pela escritora e produtora vencedora do Emmy, Moira Walley.

Conta a história de uma menina órfã, e a sua luta para ser aceita em uma comunidade, depois de ter sido adotada por dois irmãos. A chegada de Anne à família Green Gables é acidental, e traz profundas transformações à rotina, à vida, e às relações de Matthew e Marilla entre si, e com a comunidade onde vivem. Ambos já são idosos e foram marcados por uma tragédia familiar que paralisou suas vidas.

É aquela série que segura a gente do primeiro ao último episódio. Há muitas lindezas nela: é uma narrativa sobre a força das mulheres, é um registro sobre o poder transformador do amor, é a celebração da coragem de uma menina que questiona todas as estruturas conservadoras ao seu redor, e que tem uma capacidade de imaginação ilimitada, é um relato sobre o quanto o racismo é destrutivo, é uma denúncia sobre como a homofobia machuca, é uma série sobre como as masculinidades hegemônicas são vis.

É difícil acreditar que tantos temas possam ser trabalhados em uma única produção sem que a abordagem deles se torne superficial ou piegas. Mas, sim, é isso o que acontece, todos esses temas − machismo, racismo, sexismo, homofobia, genocídio dos povos indígenas −, tudo isso é trabalhado com delicadeza e profundidade.

Mas, neste post eu queria chamar a atenção para um aspecto da série que, para mim, salta aos olhos e tangencia todos esses outros temas − a educação.

A narrativa nos permite ver de perto dois paradigmas da educação que se contrastam grandemente pelas concepções, e pelas metodologias que os sustentam − o paradigma instrucionista e o paradigma da aprendizagem.

Para entender o paradigma instrucionista, basta lembrar-se da “educação bancária” sobre a qual o grande Paulo Freire fala. Já o paradigma da aprendizagem está para aquilo que beel hooks [pseudônimo de Gloria Jean Watkins, escrito em minúsculas] anuncia por “educação como prática da liberdade”.

Estes dois paradigmas são materializados na atuação de um professor − Sr. Philips − e de uma professora − Miss Stacy − e nos efeitos que suas práticas pedagógicas tão diferentes trazem para os seus estudantes, e para toda a comunidade onde a escola se situa.

A questão da educação está presente apenas em alguns episódios, mas quando passa a compor a narrativa, o faz com toda a força e contundência necessárias.

O que estou vendo a maioria das redes de educação proporem como resposta à pandemia da covid-19 está servindo para escancarar como a nossa educação ainda é bancária, excludente e atrelada ao paradigma instrucionista, quando deveríamos construir e consolidar o paradigma da aprendizagem. É a partir dele que podemos nos comprometer com a proposição de um fazer pedagógico transformador, que compreende o estudante como sujeito ativo no processo de aprendizagem, e não como um objeto, similar a uma gaveta, na qual se possam fazer depósitos de planilhas de tarefas.

Além disso, a série nos ajuda a pensar sobre quão danosa pode ser uma educação que inclui uns e exclui outros, como estão querendo fazer, ao chancelar atividades pedagógicas feitas de modo remoto como reposição dos dias letivos. Jerry Baynard, o personagem que atua no celeiro da família Green Gables, nos leva a entender essa questão, e nos faz pensar no quão injusto é concordar que receba maior favorecimento justamente quem já goza de muito mais privilégio social.

Se você é profissional da educação e ainda não assistiu à série, eu super recomendo. Veja a série e reflita sobre a educação que nós temos e a educação que precisamos construir.

E imaginem, esta discussão está sendo proposta a partir de uma obra de 1908. Esse dado informa o tamanho do atraso do nosso ensino.

Assistam e, por favor, me contem o que acharam. Eu amei!

* * *

Gina Vieira Ponte é professora de língua portuguesa na rede pública do Distrito Federal, mestre em Linguística pela Universidade de Brasília (UnB), especialista em Educação a Distância (EAD) e em Desenvolvimento Humano, Educação e Inclusão Escolar e criadora do Projeto Mulheres Inspiradoras.

A educação passa por aqui.

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