• Paulo Pinheiro

Pandemia: tema na sala de aula?

Atualizado: 8 de Dez de 2020



A pandemia provocada pelo novo coronavírus afetou significativamente a vida de todos. É natural que os alunos estejam ansiosos para discutir o tema. Mas, para usar essa questão de forma produtiva em sala de aula, são necessários alguns cuidados.


Conforme os alunos seguem participando das aulas, seja virtualmente ou pessoalmente, muitos deles estão lidando com estresse, incerteza e, em alguns casos, medo. Como resultado, os educadores precisam prestar ainda mais atenção às vulnerabilidades dos alunos.


O Brasil teve cidades duramente atingidas pelo vírus. É natural que os estudantes sintam a necessidade de discutir essa situação. Eu gostaria de compartilhar sugestões de como abordar o tema da pandemia.


1) Apresente o tópico com sabedoria

Pense com cuidado e invista muito tempo em seu plano de ensino ao lidar com tópicos relacionados à covid-19. Projete todas as atividades em detalhes; deixe o mínimo possível para a improvisação. Explique aos seus alunos, antes mesmo de iniciar uma aula, por que a pandemia é relevante para o curso ou para uma palestra específica. Em seguida, use atividades de aquecimento para construir harmonia. Esteja atento aos alunos que podem ter sofrido perdas ou sido afetados pessoalmente pela doença.


2) Seja humano e genuíno

Tente personalizar a experiência. Deixe os alunos saberem que sua tristeza, trauma ou luto são compartilhados − que eles não estão sozinhos. Tente dizer: “Estou tão confuso quanto você, mas acredito que todos podemos construir algo juntos.” Comece compartilhando experiências pessoais específicas − isso pode ajudar você e seus alunos a se abrirem. Você pode até encorajar os alunos a tentar outras formas de expressão, como, por exemplo, escrever uma poesia, para transmitir como estão lidando com a situação.


3) Não peça a seus alunos para esquecer o que aconteceu

O medo e a tristeza são respostas emocionais naturais e saudáveis. Em vez de serem negados, eles devem ser legitimados e ter um espaço seguro para que possam ser revelados. Esteja ciente do que seus alunos estão sentindo e estabeleça estratégias para ajudá-los a lidar com essas emoções. Os educadores podem modelar uma maneira saudável de falar abertamente sobre uma experiência traumática como esta pandemia global e responder de forma solidária quando os alunos expressam seus sentimentos.


4) Sempre seja respeitoso ao falar sobre emoções

Lidar com emoções não é o mesmo que lidar com ideias. Você pode desafiar seus alunos e tentar afetar seu raciocínio, sua maneira de pensar ou como abordam um problema. Mas você não pode mudar o que eles estão sentindo ou as emoções que experimentaram no passado. Ao manter o foco no material do curso e em sua própria experiência, você pode ajudar os alunos a refletir sobre essas emoções e racionalizá-las em relação à discussão mais ampla.


5) Encontre o equilíbrio certo entre ser sensível e tirar seus alunos de sua zona de conforto

O crescimento pessoal acontece quando somos colocados em situações desafiadoras. A escola, a faculdade, a universidade não deve ser um lugar onde os alunos nunca corram qualquer risco. Mas, ao mesmo tempo, os professores devem encontrar o equilíbrio certo durante as discussões em classe − uma boa mistura entre desafio e respeito, entre delicadeza e estímulo. Encontrar esse equilíbrio é crucial durante as discussões relacionadas à covid-19.


6) Evite estereótipos e clichês

Tenha cuidado para não simplificar demais essa situação muito complexa. Simplificar às vezes pode resultar em estereótipos, clichês ou declarações que podem não ser totalmente suportadas pelos dados. Evite esse risco começando com dados neutros e se apegando fortemente à análise de dados − além disso, o uso de dados também pode fazer os alunos praticarem a análise quantitativa e estimular melhor a discussão; dados sempre suscitam opiniões e comparações.


7) Discuta a covid-19 como um desafio

O uso de estudos de caso pode ajudar muito. Já existem vários casos publicados sobre esta pandemia: COVID-19 — The Global Shutdown; COVID-19: Pandemia do Século; Domino's Pizza: Estratégia de Continuidade de Negócios Durante a Pandemia COVID-19 e Enfrentando a Crise COVID-19: A Agenda do CEO, só para citar alguns. Esses textos pertencem à base de Harvard, mas é possível encontrar outras instituições que também abordam o tema. Casos que se referem a crises anteriores (por exemplo, H1N1) também podem ser usados ​​para comparar as semelhanças e diferenças com a crise atual.


8) Use literatura, filosofia e grandes autores tanto do presente quanto do passado

Incorporar literatura e filosofia clássicas em sua aula não apenas fornece uma valiosa base cultural para seus alunos, mas também ajuda a transmitir mensagens importantes do passado para que possamos refletir melhor sobre nossas experiências hoje. A literatura nos lembra que essa situação excepcional pode não ser tão única ou sem precedentes, afinal − tomemos, por exemplo, as obras de Tucídides, que descreve a praga de Atenas no século V aC; Sófocles, que fala sobre a praga de Tebas em Édipo Rei; o famoso A Peste, de Albert Camus; e o Decameron, de Boccaccio. Ainda cabe colocar nessa lista um latino-americano. O colombiano Gabriel García Márquez, ganhador do Nobel, que escreveu o romance O Amor nos Tempos do Cólera. Esses exemplos certamente falam de doenças devastadoras, mas acima de tudo sobre como as pessoas se comportaram e administraram essas situações.


9) Aproveite esta oportunidade para preparar melhor os alunos para um futuro incerto

Esta crise de saúde aumentou a necessidade de as escolas, faculdades, universidades se concentrarem no desenvolvimento das habilidades emocionais dos alunos. Os líderes empresariais de amanhã, agora mais do que nunca, devem saber como gerenciar o estresse e as ansiedades, reconhecer as emoções e reagir rapidamente quando estiverem sob muita pressão. Já existem muitos cursos de gestão de crises que exploram essas habilidades específicas, mas eles devem ser expandidos, aperfeiçoados e aprimorados após esta pandemia. Um bom treinamento de liderança deve garantir, por exemplo, que os futuros gerentes sejam resilientes durante eventos traumáticos.


Por fim, é importante reconhecer que não existe uma abordagem única para todos. O professor precisa encontrar sua própria maneira de tratar da covid-19 na aula e, naturalmente, incorporá-la ao objetivo do seu curso. Se você não se sentir confortável, não force a barra − apenas seja honesto e explique aos seus alunos os motivos pelos quais você prefere não falar diretamente sobre tópicos que abordem a pandemia.


* * *

Paulo Pinheiro é doutor em comunicação social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e instrutor do método do caso, com formação na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Professor há mais de 15 anos, lecionou na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM Sul) e na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Sua tese de doutorado trata de algoritmos e comunicação. Como jornalista, trabalhou no ZH Digital, embrião do atual clicRBS; coordenou o setor de comunicação do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers); e foi editor de capa do portal ClicRBS e do portal Terra. É graduado em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e bacharel em direito pela PUC-RS. Atualmente trabalha como produtor de conteúdo da 818 Game Academy.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

Receba nossas atualizações

  • Ícone do Facebook Branco
  • Ícone do Twitter Branco
  • Branca Ícone Instagram

© 2020 por Educa 2022. Os textos do portal Educa 2022 podem ser reproduzidos, desde que citada a fonte "Educa 2022".