• César Steffen

A EAD tem limites?



Nós, professores, estamos muito acostumados a ouvir falar da educação a distância (EAD) para o ensino de graduação e de pós-graduação. Mas a legislação brasileira recentemente abriu a possibilidade de uso da EAD no ensino médio e para mestrados e doutorados (apesar de que, enquanto escrevo, ainda não conheço nenhuma instituição de ensino superior credenciada para isso). E outras mudanças virão.

Em um momento em que as redes de ensino suspendem as aulas para evitar o crescimento dos casos de covid-19, a EAD chega ao front da educação. Apesar disso, ouvem-se muitas críticas aos formatos adotados.

Claro que a EAD não é exatamente uma novidade no cenário da educação. Muitos lembram-se do IUB, o Instituto Universal Brasileiro, que vendia cursos por meio de cupons em anúncios nas revistas em quadrinhos, e do Telecurso 1º e 2º graus, que tinha aulas todas as manhãs, bem cedo, na Rede Globo de Televisão e em polígrafos vendidos nas bancas de jornais, com o conteúdo e exercícios.

A EAD totalmente pela internet, esta sim, é relativamente nova no cenário da educação, apesar de não poder ser considerada exatamente uma novidade, pois surge muito em função e como consequência das facilidades da tecnologia da rede, e como uma alternativa ao ensino presencial clássico, oferecendo mais liberdade e autonomia para o estudante.

Assim, o aluno tem total autonomia para definir onde, como e quando irá estudar, organizando sua agenda de estudos e de compromissos. E as provas e atividades de avaliação podem, conforme as regras do Ministério da Educação (MEC), ser realizadas também pela EAD, desde que a instituição tenha a autorização e o credenciamento para isso.

Híbrido

Existe também o formato chamado híbrido, que mescla as características do ensino presencial com a EAD. Ou seja, há aulas on-line, com vários conteúdos, recursos, leituras e exercícios, mas também atividades presenciais – encontros periódicos, trabalhos em grupo, provas etc. –, conforme a metodologia e os processos adotados pela instituição.

Assim, oferece-se a flexibilidade e a independência da EAD, sem abrir mão do contato direto com professores e colegas. Esse modelo gera, contudo, a exigência de frequência que não existe no formato totalmente EAD. Justamente pela rotina mista, o aluno precisa ter tempo disponível para esses encontros, principalmente porque tem que cumprir a frequência mínima obrigatória – a maioria das instituições exige presença, com risco de reprovação.

O ano de 2020 viu ressurgir – e tomar a frente de muitas estratégias – uma modalidade pouco explorada na contemporaneidade, o ensino remoto. Alguns estados brasileiros estão utilizando o rádio como forma de levar conteúdo para os alunos, e mesmo instituições de ensino com tradição tiveram que oferecer aulas síncronas na internet por meio das plataformas LMS, envolvendo até mesmo as crianças em fase de alfabetização.

Há uma certa polêmica, especialmente em alguns meios acadêmicos, se isso pode ser considerado EAD, em função da ausência de contato entre professores e alunos, pela falta de ambientes de interação direta e pela assincronia de algumas atividades, especialmente para os estudantes do ensino fundamental – e também pela transferência rápida e automática de conteúdos do presencial para o não presencial.

Bem, nem preciso lembrar do telecurso e do IUB já citados, nos quais o aluno estudava por polígrafos e por videoaulas na TV, para lembrar que já existia EAD antes da Internet. Esse mesmo aluno, depois, fazia uma prova, recebendo seu certificado e sendo considerado formado e apto às demais etapas do ensino.

Também não preciso recordar que a pandemia pegou todos de surpresa. Então, o improviso e a pressa, por mais perigosos e nocivos que possam parecer, estão na ordem do dia. E, por menos adequadas que sejam, as atividades seguem sendo realizadas, ajustadas e aprimoradas a cada dia.

Soluções

Sim, a internet trouxe um novo ambiente com múltiplas possibilidades e formatos variados de interação e distribuição de conteúdo. Mas, em um país onde a banda larga ainda encontra barreiras e não alcança muitas regiões e municípios, e onde os planos de telefonia fixa e móvel apresentam custos ainda elevados e não tão acessíveis, usar de tecnologias que precedem a rede parece o investimento correto para minimizar o impacto da pandemia.

Ajustes deverão ser feitos? Sem dúvida. Problemas e falhas ocorrem e ocorrerão? Não há por que duvidar. Mas deixar os alunos desassistidos por tal período de tempo seria, sim, negligenciar a importância e o papel social da educação em todos os níveis.

Universalizar o acesso à banda larga, sim, deve estar na ordem do dia da educação e de todos os que se envolvem nela, de forma a que todos possam usufruir do máximo das tecnologias e facilidades geradas na contemporaneidade.

Criticar e polemizar é válido, mas mais importante é focar em construir soluções aplicáveis.


* * *

César Steffen é doutor em comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e criador da EAD sem Mistérios, plataforma que oferece cursos de formação em educação a distância para professores e gestores. Pesquisador nas áreas de comunicação, design e marketing, leciona em cursos de graduação e pós-graduação há mais de 15 anos. Atua também como avaliador do ensino superior brasileiro, integrando o Banco de Avaliadores (BASis) do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) do Ministério da Educação. É autor dos livros Midiocracia: a nova face das democracias contemporâneas e Tecnologia pra quê? − Volumes 1 e 2.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do site Educa 2022.

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