• César Steffen

A EAD atende todos os alunos?



Sem dúvida, a educação a distância (EAD) oferece uma série de benefícios para o ensino: maior alcance, flexibilidade de horários, metodologias diferentes e inovadoras, amplitude de recursos didáticos e mais. A lista aqui é claramente incompleta, e certamente você leitor terá um ou mais predicados a acrescentar.

Mesmo assim é notório que nem todos os alunos conseguem obter os mesmo benefícios e, às vezes, nem mesmo se adaptar à EAD. Nem vamos falar aqui das séries iniciais, pois a necessidade de autonomia e independência na EAD já se coloca como uma barreira muito grande para essa faixa etária.

Não por acaso, os índices de evasão no ensino superior via EAD ainda são altos, e os índices de reprovação e de desistência idem. Sim, os números do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) mostram que, em alguns casos, as formações EAD conseguem até mesmo superar o desempenho das formações presenciais. Mas precisamos lembrar que faz o ENADE quem chegou ao final do curso, ou seja, quem faz o ENADE de um curso EAD é um aluno que atendeu e se adaptou a esse formato de ensino, e muito ficam pelo caminho.

Há algo que o presencial oferta e que se coloca como seu principal diferencial e benefício na construção da relação e do ensino-aprendizado: a afetividade, a troca, não somente com os professores, mas com os colegas, com o ambiente como um todo.

Formar amigos, formar redes, ter pares e trocas é fundamental em certas fases do desenvolvimento humano. Ter uma turma, alguém com quem conversar, jogar, brincar e até mesmo brigar e divergir, faz parte do nosso crescimento. Sozinhos em casa ficamos assim − sozinhos

E não vamos esquecer que a escola acaba também ensinando regras e disciplina, organização, hierarquia, respeito à presença e ao espaço do outro, valores fundamentais para a inserção do sujeito na sociedade.

Não é à toa que os pequenos não se adaptam tão bem à EAD e sentem falta da escola, como os relatos que tomam conta das redes sociais atualmente têm demonstrado. Primeiro, porque a EAD exige do estudante um grau de autonomia que nem todos já desenvolveram. Segundo, pela falta da rede, da amizade, das trocas.

Presencial


O que talvez falte hoje ao ensino presencial seja colocar o aluno no centro do processo de ensino-aprendizagem, transformá-lo no principal agente de ensino-aprendizagem. Isso não significa, claro, deixar o professor na sombra, tirar o professor da aula ou mesmo reduzir sua importância. Significa colocar o professor como um facilitador, um impulsionador, um agente de despertar para o conhecimento, que ajuda o estudante a construir e a conhecer o que ele precisa de forma mais ativa, não apenas sentado em um classe, em fila (e em silêncio, de preferência).

Várias experiências desenvolvidas em países europeus, com aplicação e mudança de metodologia baseadas, por exemplo, na solução de problemas de forma inter e transdisciplinar, eliminando até mesmo a ideia de disciplinas, já apresentam resultados positivos. É observar e aprender.

Os sistemas, assim como as técnicas e a organização da EAD, devem evoluir muito, especialmente agora. Assim, talvez em breve essas barreiras estejam superadas e seja possível desenvolver, na EAD, recursos de aproximação e relacionamento tão próximos e afetivos quanto no encontro presencial.

Mas algo me diz que sempre teremos alunos que irão preferir o cara a cara, o olho no olho com o professor. Algo me diz que as escolas, as faculdades e as universidades, os prédios, ainda terão um papel fundamental, determinante na sociedade por muito tempo, e ainda veremos suas estruturas com muitos estudantes circulando todos os dias − depois que a pandemia passar, lógico.

Se será no mesmo formato de ensino atual − bem, esta é uma discussão que também veremos por algum tempo e que encontrará partidários de vários vieses.


* * *


César Steffen é doutor em comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e criador da EAD sem Mistérios, plataforma que oferece cursos de formação em educação a distância para professores e gestores. Pesquisador nas áreas de comunicação, design e marketing, leciona em cursos de graduação e pós-graduação há mais de 15 anos. Atua também como avaliador do ensino superior brasileiro, integrando o Banco de Avaliadores (BASis) do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) do Ministério da Educação. É autor dos livros Midiocracia: a nova face das democracias contemporâneas e Tecnologia pra quê? − Volumes 1 e 2.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do blog Educa 2022.

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