• Paulo Pinheiro

A digitalização da sala de aula



Em 2018, no tempo em que abraçar as pessoas ainda era permitido, tive a oportunidade de passar um tempo em Harvard aprendendo a metodologia utilizada em sala de aula por uma das melhores instituições de ensino do mundo. Para quem está familiarizado com o método do caso sabe que a participação dos alunos é fundamental. Então, como curiosidade, perguntei se era possível usar o método em aulas on-line. Será que era possível digitalizar uma metodologia tão analógica? A resposta, no melhor estilo Harvard, foi: depende.


Não há qualquer espécie de má vontade ou uma tentativa de esconder algum segredo sobre como dar uma boa aula. Mas a questão sobre a digitalização da sala de aula é complexa. Em primeiro lugar, quando se trata do Ensino a Distância (EAD) é preciso fazer uma pequena distinção.


Em essência, o EAD pode ocorrer de forma síncrona ou assíncrona. No primeiro caso, é necessária a participação do aluno e professor no mesmo instante e no mesmo ambiente – nesse caso, virtual. Assim sendo, ambos devem se conectar no mesmo momento e interagir de alguma forma para concluírem o objetivo da aula.


No caso das aulas assíncronas, não é necessário que os alunos e professores estejam conectados ao mesmo tempo para que as tarefas sejam concluídas e o aprendizado seja adequado. Isso fornece uma maior liberdade. Os alunos ganham mais autonomia para escolher em que tempo e ordem vão resolver as atividades propostas.


Interatividade


O modelo adotado por Harvard é o EAD com aulas síncronas. Dessa forma, a instituição acredita que pode trabalhar de forma eficiente o método do caso. Porém − e justamente nesse ponto a resposta que eu ouvi faz sentido −, se um professor aplica incorretamente a metodologia em uma aula presencial, ela não irá magicamente funcionar no mundo virtual.


Curiosamente, em conversas com outros professores, a imensa maioria se mostrou preocupada com a digitalização da sala de aula de uma forma instrumental. Quais aplicativos são mais eficientes? Como fazer para deixar as aulas organizadas? Qual ambiente digital fornece a resposta mais rápida? Como será possível trabalhar se não houver internet para todos (alunos e professores)?


Todas essas questões são elementos importantes. Mas creio que existe um problema grave que está sendo pouco lembrado: como será feita a condução dos processos interativos. Sim, o mundo on-line facilita a existência da interatividade. Mas ela não existe por si só. É preciso criar o ambiente correto.


A digitalização da sala de aula só será eficiente se os processos interativos entre professores e alunos forem corretamente mediados no ambiente virtual. Para isso é preciso treinamento, preparo e um perfeito entendimento do que significa uma aula. Caso contrário, a resposta, no melhor estilo Harvard, segue valendo: depende.


* * *


Paulo Pinheiro é doutor em comunicação social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e instrutor do método do caso, com formação na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Professor há mais de 15 anos, lecionou na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM Sul) e na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Sua tese de doutorado trata de algoritmos e comunicação. Como jornalista, trabalhou no ZH Digital, embrião do atual clicRBS; coordenou o setor de comunicação do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers); e foi editor de capa do portal ClicRBS e do portal Terra. É graduado em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e bacharel em direito pela PUC-RS. Atualmente trabalha como produtor de conteúdo da 818 Game Academy.


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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