• Dilvo Ristoff

A crise do sonho adiado

Atualizado: Mai 14


A pior das crises que enfrentamos hoje na educação brasileira é, sem dúvida, a crise do sonho adiado: o sonho sonhado pelos formuladores do Plano Nacional de Educação (PNE). O conflito entre as declarações do atual ministro da Educação e o futuro em construção projetado nas diretrizes do Plano Nacional de Educação fica a cada dia mais evidente.

Diante dos programas e políticas ainda em vigor (e.g. Prouni, Sisu, Fies, a criação de 644 campi de institutos federais, de 20 novas universidades federais e de 170 novos campi via Reuni, etc.), diante das leis que ainda estão em vigor (afinal, o PNE e a Lei das Cotas continuam valendo), mas em especial diante do momento de transição e tensão política pelo qual passa o país, é difícil ter certezas sobre o futuro ou sobre a cara da educação nos próximos anos.


A menos que estas leis e estes programas sejam varridos do cenário educacional, eles continuarão a impactar a sociedade brasileira nos próximos anos. Estas leis, políticas e programas expressam muito do futuro sonhado no PNE e estão em frontal contraposição ao futuro incerto do amanhã, que já começa a mostrar a sua cara. Embora o novo futuro tenha ainda pela frente um longo caminho até se consolidar, os contrastes entre os dois futuros já são evidentes.


Passade-se

Um desses futuros se orienta pelo PNE, o outro pelo Future-se e por declarações esparsas; um se orienta pelos programas e políticas em vigor, o outro por manifestações e esboços de políticas incertas; um imagina a universidade para todos os que a buscam, ou seja, grande e democrática, o outro, como coisa para as elites, pequena e oligárquica; um vê o campus democratizado pela inclusão de grupos historicamente alijados, o outro opõe-se à inclusão e tem horror às políticas de cotas de qualquer natureza; um reforça o setor público e trabalha em forte parceria com o setor privado (e.g. Prouni e Fies), o outro defende a ampliação do privado e insinua uma privatização branca das universidades públicas; um insiste que a educação deve ser vista como um todo, da pré-escola ao doutorado, o outro faz discurso opondo um nível ao outro, como se fossem etapas estanques; um busca desesperadamente há anos, sem muito sucesso, é verdade, construir políticas de valorização do professor (piso salarial nacional, Pibid, Parfor, Capes da educação básica, Prodocência, equiparação salarial, formação continuada), o outro vê o professor como um perigoso agitador de esquerda, um mau exemplo para os bons costumes, e, por isso mesmo, propõe fiscalizá-lo, controlar o que diz aos seus alunos, filmá-lo e reduzi-lo aos seus limites ideológicos; um valoriza e promove ações de internacionalização (concretizadas, por exemplo, na Brics Network University, na Unilab, na Unila, na Unipampa, na UFFS, no Ciência Sem Fronteiras, no Idioma Sem Fronteiras, entre outros), o outro vê a internacionalização com desconfiança por seu suposto viés esquerdista; um respeita a diversidade e as minorias, o outro demonstra ojeriza ao diferente; um valoriza os direitos humanos, em sintonia com o que propõem as nações mais avançadas do planeta, o outro entende que direitos humanos são coisa da esquerda que tomou conta dos organismos internacionais; um valoriza as artes e a livre expressão cultural, o outro propõe a censura de temas que lhe desagradam, fecha ministérios e reduz investimentos na produção artística; um valoriza as ciências, a pesquisa e os seus resultados, os censos e as estatísticas, o outro nega os resultados das pesquisas, reduz investimentos em ciência, reduz o número de bolsas, fragiliza censos consolidados, nega dados científicos de instituições consagradas, demite diretores quando os dados não agradam; um valoriza decisões colegiadas, democráticas e autônomas, o outro extingue ou esvazia comissões que asseguravam um mínimo de controle social; um promove o diálogo com a comunidade acadêmica, o outro desrespeita as suas decisões, nomeia interventores e reitores não eleitos; um defende de unhas e dentes a autonomia universitária, o outro propõe criar poderes paralelos, via organizações sociais, poderes estes que irão solapar a autoridade da comunidade acadêmica das universidades públicas; um vê a universidade como um espaço de estudos, de identificação de talentos, de promoção da arte, da ciência e da tecnologia, o outro vê o campus público como o locus privilegiado da balbúrdia juvenil, de gordas zebras e administrações perdulárias; um defende que a educação superior pública e gratuita seja financiada pelo Estado, o outro defende que a educação pública seja instrumentalizada para arrecadar recursos junto às empresas privadas, especialmente se quiser fazer pesquisa ou extensão; um defende menos graduação privada, o outro quer privatizá-la ainda mais; um defende o uso de novas tecnologias para democratizar o acesso à educação superior, o outro defende a massificação da educação à distância pelo setor privado; um respeita as diretrizes, estratégias e metas estabelecidas na Lei do PNE, o outro propõe reescrevê-las e ironiza as decisões do parlamento brasileiro sobre a matéria.


O certo, portanto, é que estamos hoje diante de propostas em conflito, diante de propostas de futuro muito distintas: uma deriva de um projeto de Estado produzido no passado recente, a outra de ações e intenções de governo, ainda em curso. Qual das duas será vitoriosa só o tempo dirá. Se futurar-se é a segunda opção e se o PNE é o passado, fica a recomendação: Passade-se! Passade-se, que tem mais futuro! Passade-se, simplesmente, porque é intolerável adiar o sonho de construção de uma sociedade avançada nas artes, nas ciências e nas tecnologias, uma sociedade inclusiva, democrática, emancipadora e sustentável, como a prevista no PNE.


Neste sentido, sempre é bom lembrar o que escrevia o poeta negro Langston Hughes, nos anos de 1950, quando ganhava força nos Estados Unidos a luta pelos direitos civis, pelo fim do apartheid e pela inclusão dos negros na sociedade americana. Escrevia Hughes, então:


Harlem

O que acontece ao sonho adiado?

Será que seca como uma passa de uva ao sol?

Será que infecciona e escorre como uma ferida purulenta?

Será que cheira mal?

Ou será que cria crosta como um doce meloso e açucarado?

O que acontece ao sonho adiado?

Talvez só se instale como um fardo pesado...

Um fardo que carregar ninguém pode!

Ou será, será que um dia explode?

(Langston Hughes, 1951 – Traduzido por Dilvo Ristoff)


* * *


Doutor em literatura pela University of Southern California, nos Estados Unidos, Dilvo Ristoff foi diretor de Estatísticas e Avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), diretor de Educação Básica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e diretor de Políticas e Programas da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESu/MEC). Foi também reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul. É autor e coautor de inúmeros livros, entre eles, Universidade em foco − reflexões sobre a educação superior (Editora Insular, 1999), Neo-realismo e a crise da representação (Insular, 2003) e Construindo outra educação: tendências e desafios da educação superior (Insular, 2011). Atualmente ministra aulas e orienta dissertações no Programa de Mestrado em Métodos e Gestão em Avaliação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

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