• Dilvo Ristoff

A caminho da nuvem: impactos da pandemia na educação


Já é profundo o impacto do coronavírus sobre o comportamento dos mercados, sobre os empregos, o turismo, o transporte, o esporte, a venda de veículos, o preço do ouro e sobre o dia a dia das pessoas em todos os cantos do planeta. Em todos os espaços observa-se, igualmente, que há demandas diretas por apoio aos cidadãos mais fragilizados e por investimentos públicos na rede hospitalar e em pesquisas de última hora em busca desesperada pela vacina ou pelo remédio que possa nos proteger. Com as escolas e universidades mundo afora fechadas e, segundo a UNESCO, com mais de 91% dos alunos do planeta fora das salas de aula, há várias semanas, é evidente que os impactos se farão sentir também na educação.

A EAD e o e-learning, por exemplo, têm agora uma boa oportunidade para se firmarem como modalidade viável, pelo menos como modalidade complementar, para o dia a dia das escolas, rumo à construção de modelos semipresenciais de ensino-aprendizagem, com a educação não mais acontecendo unicamente no prédio da escola, mas em todos os espaços da sociedade, fazendo bom uso das novas tecnologias de informação e comunicação (TIC). Afinal, mesmo com as escolas fechadas, os professores não abandonam os seus alunos e exploram meios alternativos para chegar até eles. Um desses meios alternativos encontrados por alguns diretores de escolas onde estudam filhos das classes média e alta, todos devidamente linkados, tem sido capacitar os seus professores e técnicos e colocar toda a escola on-line, na nuvem, envolvendo pais e professores nas tarefas dos alunos.

It takes a village

Embora esta estratégia não se aplique ao universo das escolas públicas, parece que agora, mais enfaticamente do que antes, ganha força o ditado africano, popularizado pela ex-primeira-dama dos Estados Unidos Hillary Clinton, em seu livro de 1996, It Takes a Village: And Other Lessons Children Teach Us (É preciso um vilarejo: e outras lições que as crianças nos ensinam). O provérbio que dá o título ao livro de Hillary lembra que a criança não cresce em uma única casa ou família e que toda a comunidade precisa participar da educação das crianças, sendo sua obrigação ajudar a cuidar delas e assegurar a elas um ambiente seguro e propício à aprendizagem e ao seu crescimento como seres humanos socializados.

Ou seja, a educação das crianças não se esgota nem no ambiente da escola nem no ambiente da família. É preciso uma comunidade para educá-las. Infelizmente, foi necessária a triste realidade de uma pandemia para aprofundar esta aproximação de pais e professores e torná-los coatores ativos do processo de ensino-aprendizagem. Infelizmente, ainda, a pandemia tornou também evidente que esta aproximação, que deveria ser um direito de todos, é, por enquanto, um privilégio.

Valorização do professor

O escritor John Updike escreveu certa vez, ao refletir sobre a educação nos Estados Unidos, que a escola foi uma invenção de pais que não aguentavam os seus filhos em casa. Ou seja, só professor para aguentar os teus filhos...

Fico me perguntando, neste momento de quarentena mundial, se o reconhecimento do trabalho do professor passará a ser outro.

Repetem-se na TV as cenas de pais com apenas um ou dois filhos, às vezes desesperados, sem saber o que fazer com as brigas, birras e a necessidade inadiável de organizar minimamente o dia de uma ou duas crianças. Será que lembram do professor que administra tudo isso com dezenas de crianças, todos os dias, ao longo dos anos? Será que haverá uma valorização maior do trabalho do professor?

Pessoalmente, duvido. A maioria provavelmente esquecerá em maio do que aconteceu em março. Nossa memória para as questões educacionais, infelizmente, é curta. Basta ver a distância entre os discursos de campanha e as ações dos governantes. De todo modo, o momento é propício para a reflexão sobre o trabalho de nossos mestres. Seria deplorável se o efeito da pandemia sobre o ambiente escolar e sobre os docentes não se tornasse objeto de pesquisa e matéria farta para a produção de dissertações e teses em nossos programas de mestrado e doutorado. Seria trágico se tudo isso não nos levasse à construção de políticas mais agressivas e determinadas de formação permanente e de valorização dos nossos professores.

Redes

Na educação superior, o efeito da pandemia deverá acelerar ainda mais o processo, já em curso, de construção do campus do futuro: o campus logo logo deixará de ser apenas lugar para tornar-se principalmente rede — parte integrante de inúmeras outras redes espalhadas pelo mundo. O potencial científico desta nova concepção universitária deverá tornar-se a galinha dos ovos de ouro dos futuros governantes, pois terão, imagina-se, aprendido com a pandemia que precisamos de respostas rápidas, que precisamos da cura antes da chegada da morte.

Só a pesquisa, a ciência e o avanço do conhecimento nos dão algum alento e esperança ao lidar com males como este que agora nos aflige. E é sempre bom relembrar que o conhecimento só avança se houver investimento público decisivo e continuado (não investimento caprichoso e espasmódico!) no processo de identificação de talentos para estudos avançados, na promoção e no desenvolvimento da pesquisa.

Em outras palavras, o avanço do conhecimento está inextricavelmente ligado ao investimento forte e continuado nas universidades públicas – instituições estas que, como bem destaca a UNESCO, devem assumir papel de liderança também no enfrentamento dos grandes desafios da atualidade: segurança alimentar, mudanças climáticas, gestão da água, diálogo intercultural, energias renováveis, saúde pública, entre outros (ver o chamamento à ação da Conferência Mundial da Educação Superior de 2009).

Exclusão digital

O potencial destas redes interligadas, nacionais e internacionais, torna a inclusão digital no Brasil e em muitos países do mundo uma urgência.

É chocante o dado do IBGE, de 2017, de que 25% dos lares brasileiros ainda não tinham conexão de internet... Isso não apenas impacta a vida dos milhões que, sem acesso à internet, terão dificuldades de ser incluídos nos cadastros do governo para receber os R$ 600,00 de auxílio durante o período de isolamento social provocado pela pandemia. Impacta também os grandes contingentes de pobres que todos os anos batem às portas das universidades e aos quais precisamos assegurar o direito de continuar com os seus estudos.

O desperdício de cérebros e de energias criativas não fica sem consequências pelo simples fato de que estes cérebros e estas energias deixarão de ser colocadas a serviço do desenvolvimento do país e do avanço das artes, das ciências e das tecnologias. Por tudo isso, o dado do IBGE revela-se cruel: é muita gente excluída, e é difícil dormir tranquilo com tamanho ruído reverberando no coração dos justos!

Que o campus do futuro, da era pós-pandemia, possa ser mais inclusivo e contar com todos os que o procuram para o enfrentamento dos grandes desafios da sociedade contemporânea. Que as escolas que fazem uso das TIC não estejam disponíveis apenas aos filhos dos mais bem aquinhoados.

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Dilvo Ristoff foi diretor de Estatísticas e Avaliação do Inep, diretor de Educação Básica da Capes, diretor de Políticas e Programas da SESu/MEC e reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul. Atualmente, ministra aulas e orienta dissertações no Programa de Mestrado em Métodos e Gestão em Avaliação da Universidade Federal de Santa Catarina.

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