• Paulo Pinheiro

100 anos do método do caso

Atualizado: Mai 3



O método do caso completa 100 anos. Na verdade, essa é uma afirmativa polêmica. A data a ser comemorada se refere à publicação do primeiro caso voltado para uma escola de negócios, mais especificamente a Harvard Business School. Pela primeira vez os alunos tentavam resolver os problemas reais de uma empresa, mais especificamente a General Shoe Company.


O caso refletia os problemas da época. É lógico que muita coisa mudou no ambiente de trabalho de 1921 até 2021. Porém, o texto ambíguo e a falta de informações já fazem parte do primeiro case usado em Harvard. Aliás, a história da General Shoe Company continua interessante até hoje. Na leitura, os estudantes descobrem que os funcionários da fábrica param de trabalhar por até 45 minutos antes do horário de encerramento. Não é por falta de negócios − a empresa tem mais pedidos do que pode atender. Então, qual é o problema?


Depois de resumir a situação da General Shoe Company − o primeiro caso tem apenas uma página −, o texto termina com duas perguntas para o leitor:


Que fatores devem ser desenvolvidos na investigação por parte da administração?


Quais são as políticas gerais de acordo com as quais essas condições devem ser corrigidas?


Em outras palavras, o que está acontecendo aqui e o que os gerentes devem fazer para consertar esse problema? Outra característica que se mantém até os dias atuais é uma espécie de mistério. É quase como se fosse uma história de detetive na qual os alunos precisam descobrir a solução.


Os casos mudaram consideravelmente desde que a General Shoe Company foi publicada. Diga-se de passagem, a grande maioria tem muito mais do que uma página. Um bom case também vai incluir vários anexos com exposições derivadas de extensas pesquisas de campo. Muitos têm notas de ensino e outros materiais complementares, como planilhas e conjuntos de dados. Alguns contêm componentes de áudio, vídeo ou mesmo de realidade virtual.


O mundo dos negócios mudou. Muitas organizações descritas nos casos competem nacionalmente ou até mesmo globalmente em ambientes incertos, mutáveis ​​e altamente competitivos. Elas devem inovar com frequência, gerenciar cadeias de suprimentos complexas e vários regimes regulatórios e motivar e reter uma gama cada vez mais diversificada de funcionários.


Porém, apesar dos seus 100 anos de idade, a história da General Shoe Company ensina lições valiosas até hoje. Afinal de contas, esse caso descreve uma situação real com uma tomada de decisão que os gerentes enfrentaram. Então, como em muitos cases atuais, o leitor é colocado no lugar de um gerente e, com as informações fornecidas no texto, terá de tomar uma decisão. Desde 1921, os casos não fornecem a resposta. A solução é encontrada por meio da discussão, do compartilhamento de conhecimento entre os alunos. Esse é o caminho para que o aprendizado se desenvolva.


Onde tudo começou


No primeiro parágrafo, expliquei que o centenário poderia ser motivo de polêmica. Isso ocorre porque os autores dos primeiros casos de negócios se inspiraram no uso de casos editados de decisões judiciais. Esses resumos eram − e ainda são até hoje − utilizados para ensinar estudantes de direito. De fato, o sistema judiciário norte-americano é eminentemente jurisprudencial. Portanto, o ensino do direito sempre foi feito por meio de casos.


No entanto, existem autores que argumentam que educação empresarial requer materiais e métodos de ensino diferentes daqueles usados ​​nas faculdades de direito. Eles acreditavam que, ao contrário da lei, os negócios não tinham “práticas e precedentes” nos quais os alunos sempre pudessem confiar. Como os autores de casos de hoje, eles queriam desenvolver materiais que ajudassem os alunos a aprender a definir e resolver problemas gerenciais sob restrições de tempo, incerteza e condições em constante mudança.


Panorama dos casos em 2021


Hoje, cerca de 15 milhões de casos de negócios são vendidos anualmente para alunos. Mais de 50 escolas de negócios em todo o mundo agora têm coleções de casos. Milhares de novos casos são escritos e lançados todos os anos. Esses dados sugerem que, mesmo que os casos tenham mudado e continuem mudando, o método do caso tem apelo e influência duradouros. O mais interessante é que recentemente os casos passaram a ser utilizados em outras áreas com sucesso. Ou seja, não se trata de uma exclusividade das escolas de negócios. Na verdade, o método do caso é uma poderosa ferramenta de ensino, podendo ser aplicado a diversos campos do conhecimento.


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Paulo Pinheiro é doutor em comunicação social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e instrutor do método do caso, com formação na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Professor há mais de 15 anos, lecionou na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM Sul) e na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Sua tese de doutorado trata de algoritmos e comunicação. Como jornalista, trabalhou no ZH Digital, embrião do atual clicRBS; coordenou o setor de comunicação do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers); e foi editor de capa do portal ClicRBS e do portal Terra. É graduado em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e bacharel em direito pela PUC-RS. Atualmente trabalha como produtor de conteúdo da 818 Game Academy.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.