• César Steffen

A hora da educação!

Atualizado: Ago 5



Bem, todos sabemos que estamos em um momento de pandemia, de isolamento, de escolas fechadas, onde professores e alunos precisaram de forma rápida se adaptar à EAD. Surgiram, claro, os problemas naturais de quando somos 'atropelados' pelos fatos.

Como dar aulas EAD para os pequenos? Como envolver professores sem qualificação para a EAD? Como qualificá-los de forma rápida e efetiva? Como atingir a rede pública? Como chegar a alunos sem acesso à internet? Os conteúdos serão validados? Será possível retornar ao presencial? E muitas outras questões que mexeram com a ansiedade de todos os envolvidos em educação, de pais a gestores.

Estas dúvidas estão mobilizando professores, pedagogos, gestores, especialistas, pesquisadores, pais e alunos em todo o Brasil. E muitos se confundem entre aquilo que é do ensino e aquilo que é da educação.

Ensino e educação


Assumirei o risco de uma conceituação rápida para situar você, leitor. Ensino é um processo mais unilateral, de um que detém o conhecimento e transfere para o outro. Já educação pressupõe uma troca, uma ação dialógica entre seres, dividindo uma experiência conjunta.

Por isso creio que esteja chegando o momento de falarmos direta e especificamente em educação, que não muda com a mediação, com a presença da tecnologia. Como coloquei em artigo anterior, a EAD tem uma forte e presente dimensão humana, e esta dimensão humana deve estar no cerne, no front, no foco de quem está lidando com as questões diárias de escolas, faculdades e universidades.

Seria desnecessário dizer, mas em um cenário onde se coloca tanto foco e se discute tanto a tecnologia, onde se volta a incorrer no erro de colocar o meio, o suporte acima do humano, é preciso relembrar: um professor não fala com e para computadores. Fala para alunos através do computador. E, seja presencial, seja híbrida, seja totalmente EAD, a dimensão e o fator humano não se perdem.

Café e conversa


Converse com um professor e veja do que ele sente mais falta. Sou capaz de apostar − por ver por meus colegas e amigos próximos − que a maior saudade destes tempos de isolamento é do convívio com as pessoas, do café na sala dos professores, da conversa e discussão com os alunos. Do fator humano.

Mesmo assim, temos que olhar a relação entre estes e a tecnologia. Como podemos pensar uma aula hoje, sem, por exemplo, um projetor, sem poder usar vídeos ou até mesmo sem acessar a rede administrativa para lançar notas, faltas e mais? Ou mesmo sem poder consultar bibliotecas on-line, revistas acadêmicas e científicas com o estado da arte do conhecimento de nossa área? Ou mesmo em algumas áreas como a medicina, sem usar os softwares de simulação que agilizam e até mesmo evitam o uso de recursos escassos − como corpos humanos − no ensino?

A tecnologia se infiltrou em nosso cotidiano, em nossa sociedade. E falo de infiltração na melhor acepção da palavra. Somos auxiliados, mediados e até mesmo investigados pelas tecnologias. A educação não estaria livre, não passaria ao largo deste processo.

Temos problemas? Sim, como em todas as áreas. Mas também, como nas demais áreas, estamos aprendendo. E, nesta hora em que tudo está acelerado é que os desafios até então adiados têm que ser enfrentados.

Velocidade


Sim, o domínio das linguagens, técnicas e tecnologias é indispensável. Mas, por mais fortes e presentes que sejam, essas tecnologias não suplantam, não eliminam a necessidade e a preponderância do fator humano, independentemente do ambiente e da plataforma. Da capacidade de interação, de empatia, de simpatia até.

Temos que pensar em educação, na construção conjunta, interativa, dialógica e, acima de tudo, humana do conhecimento. A tecnologia é e será um suporte, um meio, uma forma de troca, um canal, um apoio, seja em sala de aula, seja em nossa casas, seja em um modelo híbrido.

A internet e as tecnologias digitais não acabaram com os jornais, as rádios, a TV, o cinema. Os re-significou. E isso está chegando à educação por meio da EAD, agora com maior velocidade em função da pandemia.

Por isso, o momento é de pensar a educação como um todo, além de paradigmas, de formatos ou mesmo de ideologias, de tecnologias, suportes, ou meios. De pensar na relação humana que se faz por meio desses recursos.

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Encerro com algo novo, pelo menos neste espaço: a indicação de uma leitura que pode contribuir para o pensamento sobre este momento da educação. Trata-se do artigo 'Por um novo conceito e paradigma de educação digital onlife' − sim, é onlife mesmo, não é erro de digitação −, do professor José António Moreira, da Universidade Aberta (UAb) de Portugal, e da professora Eliane Schlemmer, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).

Não me deterei aqui em maiores comentários, na esperança de levá-los a acessar e a ter contato, pelo menos, com o resumo. Segue o link: https://www.revistas.ufg.br/revistaufg/article/view/63438/34772


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César Steffen é doutor em comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e criador da EAD sem Mistérios, plataforma que oferece cursos de formação em educação a distância para professores e gestores. Pesquisador nas áreas de comunicação, design e marketing, leciona em cursos de graduação e pós-graduação há mais de 15 anos. Atua também como avaliador do ensino superior brasileiro, integrando o Banco de Avaliadores (BASis) do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) do Ministério da Educação. É autor dos livros Midiocracia: a nova face das democracias contemporâneas e Tecnologia pra quê? − Volumes 1 e 2.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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