• Demétrio Weber

Saeb censitário 'é desperdício'

Atualizado: Jul 9


Imagem: Reprodução / YouTube Instituto Unibanco

A presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), Maria Helena Guimarães de Castro, criticou nesta quarta-feira (7) a decisão do governo federal de realizar o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) no mesmo formato de anos anteriores em meio à pandemia de covid-19. Maria Helena defendia que a edição de 2021 do Saeb fosse amostral, com a divulgação dos resultados até janeiro ou fevereiro de 2022 − a tempo de orientar as redes de ensino na preparação para o próximo ano letivo.


Enfatizando que falava como presidente da Associação Brasileira de Avaliação Educacional (Abave) − cargo que também ocupa − e não em nome do CNE, ela declarou: "Somos absolutamente contra a realização da avaliação Saeb censitária este ano, com resultados previstos para serem divulgados em outubro do ano que vem", disse ela, ao encerrar o webinário Presente e Futuro das Avaliações Educacionais no Brasil, promovido pelo Instituto Unibanco em parceria com o CNE. "É desperdício de recursos, de tempo, de energia."

Em portaria publicada ontem (6) no Diário Oficial da União, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) estabeleceu que o Saeb 2021 seguirá os moldes da edição de 2019, com provas aplicadas a todos os alunos das séries avaliadas na rede pública, o chamado formato censitário. Na rede particular, o teste continuará sendo amostral. A previsão é que os resultados sejam divulgados somente no segundo semestre de 2022.


Maria Helena lembrou que a Abave sugeriu ao Ministério da Educação e ao Inep que o Saeb 2021 fosse amostral, com o objetivo de traçar um diagnóstico dos impactos da pandemia. A associação enfatizou também a importância de que os resultados fossem divulgados antes do início do próximo ano letivo, a fim de auxiliar as redes de ensino no planejamento das atividades de recuperação da aprendizagem.


Maria Helena lembrou que o Brasil está entre os países do mundo com mais longo período de suspensão das aulas presenciais durante a pandemia. "Considero, infelizmente, uma decisão equivocada essa de fazer um Saeb censitário. É realmente inexplicável."

O ex-secretário de Educação de Pernambuco Mozart Neves Ramos, que é membro do CNE e chegou a ser cogitado para comandar o MEC no início do governo Bolsonaro, também criticou o formato do Saeb 2021. Segundo ele, já se sabe que houve perda de aprendizagem e aumento das desigualdades durante a pandemia. Daí a urgência de colaborar com as redes de ensino na definição de estratégias para correr atrás do prejuízo. "A gente deveria estar produzindo resultados da avaliação que pudessem preparar as redes de ensino para o inicio do ano letivo de 2022", afirmou Mozart.


'Dinheiro fora'


O ex-presidente do Inep Francisco Soares seguiu a mesma linha: "É jogar dinheiro fora. O Brasil precisa usar agora recursos para melhorar a aprendizagem dos nossos estudantes", disse ele. Dentre os impactos negativos da suspensão das aulas presenciais na aprendizagem, Soares destacou a defasagem na alfabetização: "Nós temos no Brasil um problema crônico, sério, tsunâmico no inicio da alfabetização. As crianças não estão sendo alfabetizadas, porque não tiveram oportunidade. Em grandes números. Então, nós temos que gastar dinheiro com isso. O nosso processo de avaliação tem que ver a nossa necessidade", disse ele no webinário.


Soares foi além e afirmou que, diante do tamanho da crise educacional causada pela pandemia, a prioridade deveria ser o investimento nas escolas e não em avaliações. Para ele, os diagnósticos já realizados por redes estaduais como as de São Paulo, Ceará e Rio Grande do Sul produziram dados suficientes para orientar as ações de recuperação da aprendizagem. "São Paulo tem gente de todos os perfis. Então, eu não preciso repetir, gastar um dinheiro para saber o que a gente precisa fazer. Nós estamos vivendo aqui uma crise", afirmou. "Esse dinheiro que vai ser gasto seria suficiente para se construir uma série de iniciativas tecnológicas que são absolutamente necessárias."